O Povoamento Poético de Brasília

Por Anderson Braga Horta Brasília foi um gesto ousado, corajoso, temerário para alguns, combatido por muitos. Mas não foi um gesto impensado. Repito o que disse em “Notícia de Poesia em Brasília”, texto que abre o livro “Sob o signo…

Eduardo e Mônica

"Eduardo e Mônica é de 1980, da época do Trovador Solitário, personagem criado por meu irmão. Algumas das citações da letra tinham a ver com o dia a dia dele, que fazia natação na AABB, gostava de cinema…

Relatório de Lúcio Costa

Relatório do Plano Piloto de Brasília, por Lúcio Costa. Clique abaixo para ler ou fazer o download.      

FEIRA DE CEILÂNDIA (SENZALA)

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A feira de Ceilândia te oferece o que quiser
comprar:
Peixe, sapato, retrato, colar pra te enfeitar
E o cinto da moda

Sinto vontade, grande necessidade de
comprar
Roupa xadrez, meia longa, bota preta pra
arrasar
Estilo colegial, brega, veste mal, vamos parar
(…)
Mas o que você precisa mais, na feira não se
pode encontrar:
Razão, consciência, senso, inteligência
Uma cabeça pra pensar
Isso só no shopping lá do centro você vai achar
Se tiver dinheiro pra comprar
Boa aparência pra entrar
(…)

Ellen Oléria
Poema transcrito da coluna “Fora do Plano”, Correio Braziliense, 13 de julho de 2015.

SK8

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SK8
É
cultura
energia
pulsação
é um tipo de célula social
para construção de laços,
amizades, cidadania

antes da existência dos paralamas do sucesso
o Herbert e o bi conheceram-se através do SK8

cresci entre livros e idas de SK8
para a pista do clube dos 200 em Taguatinga

a chegada da pista na praça do D.I.
representou o desejo de toda uma geração

ontem,
diante dos olhos do administrador de Taguatinga,
nossa pista foi derrubada

a praça do SK8 é do povo
ontem meu coração foi dormir furado
ontem foi o meu pior role em taguatédio

querem acabar com as drogas?
derrubem polític@s ordinári@s

a fúria dos deuses
irá voltar-se
para os criminosos
da beleza

Paulo Kauim
Poema transcrito da coluna “Tantas Palavras”, Correio Braziliense, 07 de maio de 2015.

Ronaldo Cagiano

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Ronaldo Cagiano comparece com o verbo contundente, a mensagem politicamente engajada, que não tergiversa. Embora sem parentesco visível de natureza estética com Bertolt Brecht ou Ernesto Gardenal, são essas figuras exponenciais da poesia participante que ele nos faz lembrar. É verdade que se trata de composições de uma fase francamente panfletária de sua obra, quando, não por coincidência, como articulista Cagiano fustigava e enfurecia políticos da Província, ao execrá-los, merecidamente. Conquanto o tom de agora seja outro, o poeta optou por marcar aquele período de sua vida com os poemas denunciadores do “…cinismo caviloso das elites/, a ignomínia persistente dos canalhas”. Em “Prosoema”, ele é ainda explicito e prosaico, antes de seus versos mais depurados, mas metafóricos e menos circunstanciais, o que explica os seus vários destaques em certames literários, nos últimos anos. Sensível, solidário, político, irreconciliável com o oposto da ética ele também o é na “Crônica (da) cidade”: “do derradeiro pântano/emerge a cidade”. R.C. aponta para “(…) a cidade com suas veias abertas”: o seu sangrar é a dramática presença de homens e crianças na mendicância, condição que os ultraja pelas vias públicas da metrópole.

Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

As ninfas da construção

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Por Ana Miranda

Muitos dos escritores naturalistas do século 19 se debruçaram sobre a figura da prostituta, como Zola, Tolstói ou Dostoiévski. Matizaram e dramatizaram moças quase sempre arrastadas do campo para os becos sujos da cidade, empurradas pela miséria. Também nossa literatura se ocupou de personagens desse mundo assombroso, desde Lucíola, de José de Alencar, em que Lúcia é a mulher que “na perdição conserva a pureza d’alma”. Essas mulheres foram o antídoto ao culto da donzela, e a tolerância a sua atividade se baseou na crença de uma espécie de “proteção” às famílias. Em todos os eldorados, corridas de ouro, campos de trabalho ou locais de homens carecentes, elas estiveram ali aos bandos.

No tempo da construção de Brasília, foram atraídas para aquele canteiro de obras repleto de homens, muito deles jovens e solteiros, ou distantes de suas esposas. É possível se pensar que, se não fossem essas mulheres, a historia da construção da cidade teria sido bem mais violenta; elas eram um alívio para a virilidade dos construtores. Faziam parte dos segredos da cidade. Lembro que, quando se dizia as palavras sete quedas, as mocinhas ficavam coradas de pudor. Havia um bordel com esse nome.

Mais o mais famoso era o Veneza, que contava com um quadro de mulheres selecionadas entre as melhores em Minas, São Paulo, Rio, duas lindas cubanas e francesas. Havia uma decoração esmerada, com cortinados, luzes ardilosas, babados, flores, estátuas nos cantos do “salão de baile”. As moças usavam batom forte, vestido longo com decote arrojado, sapato alto, cabelo arrumado no salão de beleza. Não podiam repetir a roupa, deviam usar meias finas e estar sempre limpas. Umas andavam de charrete com cavalo branco, a saia rodada aberta sobre o assento.

As mais bonitas e jovens eram as mais caras. Ficava uma tabela de preços na porta do quarto; o dinheiro das mulheres era dado a elas, e o de casa, deixado na copa. Mas antes elas tinham de fazer sala, dançar, levar os homens a beber para dar mais lucro à casa. Ali iam políticos, engenheiros, os homens mais abastados, consta que até Juscelino frequentava o lugar, enquanto os seguranças ficavam esperando do lado de fora.

No inicio, os candangos iam para Luziânia ou Formosa buscar diversão sexual, mas dava “falha de serviço”, e a muito custo convenceram Israel Pinheiro a permitir um cabaré mais perto, na Cidade Livre, adiante do trilho do trem de ferro. Uma casa de tábuas, um quarto pequeno com cama e uma mesinha. Assim que recebiam o salário no fim de semana, peões, candangos, soldados tomavam banho, mas uns iam mesmo cheirando a suor. Um caminhão os despejava na frente do bordel, eles faziam fila na porta, encostados um no outro para não perder a vez, meio rindo, meio sem graça.
Uma prostituta contou que “passavam por cima” dela uns 80 homens num dia. Elas recebiam uma pomada para desinchar as partes, e eventualmente um descanso de uns minutos para se refazerem. Cada ato custava 30 cruzeiros: 15 para a chave, 15 para a mulher, que era descontada em cinco do álcool, sabonete e uso do banheiro.

Não tinham vida fácil essas moças. Se uma delas saía na rua, as de família chamavam a policia e elas eram presas. Se a GEB chegava, as menores de idade se escondiam debaixo da cama para não serem levadas. E quando acharam que não devia mais haver aquele bordel, um juiz deu ordem de fechar, um trator derrubou o barracão, e as mulheres foram mandadas de caminhão para Alexânia, Luziânia, ou largadas na estrada. Umas se saíram bem, casaram, compraram casas, mas a maioria continuou numa vida de pobreza e dificuldades.

As prostitutas do tempo da construção de Brasília ficaram esquecidas pela história, o que deu o titulo do filme de Denise Caputo, “A saga das candangas invisíveis”, em que ouvimos o depoimento de alguma delas, Yone, Auda ou Noeme Luís, com seus rostos maltratados, uma dose de amargura, traços de uma antiga beleza e um certo orgulho daquelas lembranças, sabendo-se tão pioneiras com outro qualquer.

Texto transcrito do Correio Brazilense, 22 de fevereiro de 2015.

UMA CANÇÃO PARA NIEMEYER

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UMA CANÇÃO
PARA NIEMEYER

A minha vida é sempre assim…
É como a flora do cerrado…
São galhos tortos postos
sobre estes troncos torturados…
Mas preparei flores para ti…
E frutos bem adocicados…
Cajus, cagaitas e pequis…
Mangas colhidas com cuidado!

Retas perseguem setas e rotas nunca dantes experimentadas…
Eu vi um ângulo impossível furar o vão e virar escada!
Era uma mão ou era uma asa aquela concha tão desvairada?
E aquele vão onde passam vans…? E aquele voo por sobre o nada?!

E aquele círculo em espiral e aquela curva tão concavada!
E olhem só que palmas esguias! E estas formas enfileiradas…
Esteta louco! Não vê que cai! Este experimento vai dar em nada!v
Vejo que ri atrás dos bigodes e da prancheta endiabrada!
(…)

Paulinho Dagomé
Poema transcrito da coluna “Fora do Plano”, Correio Braziliense, 13 de julho de 2015.

BRASILIA FUTURA

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Lua cheia
no meio do Brasil
a construção de tudo: a cidade
No princípio é moldura do nada
sobe mais de 1.000 metros no ar
nem um morro contorna a vista
no alto o plano piloto vira escultura
A primeira fase é candanga
ligação de Brasis
com o mundo
Os pés sobre a terra finavermelhácida
pele de asfalto
corpo de concreto e vidro
mãos ao norte e sul do fazer
O rosto da cidade fica conhecido
sai do papel
escala o pico do impossível
em recorde de inauguração
A cidade criança engatinha
abre os braços para toda gente
parece com a mamãe e o papai
traços da filosofia socialista e de Le Corbusier
anda com a burocracia e suas primas Poesia e Lazer
Infância de sonhos
cidade encontro de céu e chão
asas de último tipo
A dimensão Brasília
face humana do cerrado e arquitetura
fundidos em habitantes-raízes da utopia
Brasília
marco zero da ocupação do interior
voo de raças e quereres
seta ao vento da miscigenação
Aqui não tem mar, não tem esquina
nem trem ou tradição…
ter nascido cidade-capital é destino
de gente, espaço e tempo
Oscar Niemeyer e Lucio Costa
criaram os rumos da modernidade brasileira
largo gesto de autoria
de casas e palácios das mudanças
Tem palavra que é Brasília escrita e pronunciada
mudança é uma delas
muda de lugar e hora
transmuta e marca a história.

Delei
Poema transcrito do álbum “Brasília: 55 anos – da utopia à Capital

Um aeroporto vermelho

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Por Ana Miranda

Naqueles fins dos anos 1950, íamos viajar para a sonhada Brasília. Era preciso fazer uma roupa de viagem, ter uma maleta de mão, comprar malas, capas, todo um enxoval. Tempo em que havia lirismo nas pequenas e grandes coisas. As passagens tinham sido adquiridas com muita antecedência, cada uma era um bloco de papel, as páginas preenchidas a mão, não podíamos esquecer de levar as passagens! E sentíamos uma ansiedade imensa, contávamos os dias, arrumando de um e outro jeito as malas para caber mais coisas, vou precisar disto, daquilo, a viagem era discutida, esperada, sonhada… Ainda mais uma viagem de mudança. Houve despedidas, lágrimas, promessas de cartas… Adeus, Rio de Janeiro! A viagem demorou uma eternidade, o avião parecia uma lata aparafusada, milagre que voasse uma coisa tão pesada, e o mundo lá embaixo, infinito, mares, nuvens e florestas e montanhas… A paisagem ia mudando, a mata ficando baixa, rala… Enfim, era o Planalto Central.

Lá estava a pista do aeroporto, ao lado o barracão de madeira, e terra vermelha. Pessoas acenavam à beira da pista. O avião pousou, fez a volta, encostou no terminal. Abriu-se a porta e senti o ar seco de Brasília. Descemos pela escada segurando firme no corrimão, com nossas frasqueirinhas, uma azul e uma rosa, nossas roupas costuradas para a ocasião, uma azul e uma rosa, saia e paletó, as duas meninas que se vestiam como gêmeas, e a mãe de saia justa, salto alto, segurando os cabelos ao vento, capa de viagem. Pisamos em Brasília. A pergunta, a sombra de um sonho, se tornava uma verdade feita de cimento, terra, gente. Sim, havia gente, meu pai não morava ali sozinho com o presidente e o doutro Inácio e uns lobos.

Logo vi meu pai, encostado na Rural Willys branca e vermelha, fumando, de chapéu de palha, seu carro estava estacionado perto da pista, entre jipes, Vemaguetes, um ônibus. Ele veio até nós, nos abraçamos e fomos buscar as malas, entregues dentro do terminal lotado de gente alegre e ruidosa. Era um aeroporto acolhedor, na nossa dimensão, onde as pessoas circulavam livremente, e já dava uma provinha da cidade: a construção de madeira, as grades horizontais de tábuas na fachada, para proteger do sol. Um aeroporto que pertencia ao passageiro. Logo entramos na Rural, e fomos aos trancos pela estrada de terra que nos levava à cidade. Naquele tempo a distância entre o aeroporto e a W3 parecia bem maior, a intensidade de sentimentos estendia o tempo.

Havia um antigo aeroporto, de terra batida e casa de taipa coberta de palha, chamado de Vera Cruz, quando ainda se iluminava a pista com faróis de jipes; e o segundo, provisório, com terminal de madeira e pista asfaltada. O aeroporto era muito importante para uma cidade com estradas difíceis, às vezes se demorava umas trinta horas só de Anápolis a Brasília, por terra. E chegavam levas e levas de visitantes ou moradores ou gente do governo que ainda vivia no Rio e vinha só para trabalhar.

O aeroporto era também lugar de passeio, o povo da cidade gostava de olhar os aviões pousarem e levantarem voo. Às vezes, as visitas eram anunciadas, esperadas, formavam-se pequenas multidões para receber alguma celebridade. Fomos, um grupo de estudantes em uniforme de gala, recepcionar Charles de Gaulle, homem grandão, meio desengonçado para um presidente. O aeroporto era movimentado, ali desceram e subiram muitos convidados, chamados para apoiar o sentimento mudancista: Fidel Castro, André Malraux, Golda Meir, o príncipe da Holanda, a duquesa de Kent, o presidente da Itália… E cineastas, diplomatas, jornalistas, congressistas, pioneiros, famílias de pioneiros, gente comum, meninas com frasqueirinhas, desciam e subiam Caravelles, Viscounts, aviões da Panair… Era o porto do nosso mar que era o céu. O presidente às vezes esperava pessoalmente algum convidado. Ele mesmo foi um dos maiores fregueses do aeroporto, desde os primeiros pousos e decolagens. Brasília era também destino de turismo para arquitetos, e curiosos em geral. Pessoas viajavam para conhecer o canteiro de obras mais famoso do mundo.

Dali para cá, o aeroporto mudou tanto quanto o mundo; não é mais bucólico, nem livre, é um lugar impessoal, imenso e pequeno, cheio de comercio, com excesso de gente. Somos levados aos portões, revistados e vigiados, exigem documentos e precisamos nos comportar como um rebanho. Ainda bem que temos os painéis de Athos Bulcão para nos confortar nas horas de espera, e um livro ou um encontro casual.

Texto transcrito do Correio Braziliense, de 1º de dezembro de 2013. Caderno “Diversão&Arte”

Reynaldo Jardim

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Reynaldo Jardim, em “Planaltiana”, exalta sua musa, que “se dança molhada” e “me agasalha em Planaltina”. O poeta não diz, nem está no seu dever dizê-lo, o porque de associar “essa menina de mim” a vegetais aromáticos como alecrim, hortelã, coentro. Ficam no ar o bom aroma e as razões do poeta… Em “Anjo” os versos giram em torno da que é “ainda casta corrompida amante”, sempre esperada como se apresenta no primeiro terceto do soneto: “Do Lago Sul, à beira da piscina,/ou de um quarto alugado em Taguatinga,/ela virá em sonho ou de verdade”. O seu “Hino ao Brasil” foi o texto vitorioso em concurso promovido, no final de 1987, pelo maestro Jorge Antunes, da UnB, para “escolher novo hino nacional” (428 votos contra 90, dados ao segundo colocado). A linguagem (o vocabulário) é simples, despida de metáforas; os versos (hexassílabos) e o texto curtos; em ordem direta a construção das orações. Os primeiros versos: “Da paisagem ferida/da criança lesada/Da mulher soluçando/homem triste na estrada/Desta terra traída/pobre gente humilhada/Há de bela explodir/a nação libertada (…)”.

Texto extraído da Antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

Arquitetura Nascente

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(…) Mansão. Castelo. Catedral.
Marmórea manhã subindo
Arbórea ascenção votiva Cingindo a
cidade imortal.
Volume a se conter bem perto,
Espaço a se expandir tão longe,
Mar aberto a proa do navio,
Trens Coleando rampas nos montes…
Ponte pênsil: raiz aérea
Transpondo a beleza abissal,
Avião a jato projetando
O abismo em vôo monumental.

Joaquim Cardozo, poeta pernambucano

Paulo Porto

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Paulo Porto, como informa sob o título de “O sonho de D. Bosco (I)”, inspira-se em “uma mensagem de Pessoa”. Trata-se evidentemente de “Ulisses”, que assim se inicia: “O mito é o nada que é tudo”. Daí sua conclusão, segundo a qual “O mito é a palavra dada/que se fez mundo”. “O corpo morto de Deus” (4º verso da mesma estrofe 1ª), do lusitano, recria-o Paulo Porto e temos, então: “O horto mudo de Deus”. “Sem existir nos bastou/Por não ter vindo/E nos criou.” (4º e 5º versos da estrofe 2ª) transmuda-se e torna-se “Este mito que aqui germinou (…)//Por não ter vivido/Foi ouvido e nos ergueu”. Com habilidade, o jovem poeta, o único autenticamente brasiliense desta coletânea, apossa-se da voz de Fernando Pessoa, e a funde à expressão profética ou lendária (“Ele é lenda que se fez palavra” – 3º verso do 3º quarteto) do sacerdote salesiano. Na exegese que faz de “O sonho de D. Bosco (II)”, diz Paulo Porto que “o poema aborda, de maneira ficcional, o que teria sido a visão do Novo Milênio. Minha narrativa acrescenta à tal visão outras, como o envilecimento do sonho de JK pelos militares, durante os anos da ditadura”. O ‘rio humano’ do poema seriam os pioneiros que foram sinalizados (no sentido camoniano”: ‘as armas e os barões assinalados) pelo sonho de uma cidade até então mítica, profética; porém não vieram para a construção. Deste rio humano escolhido mas que não vingou, vieram afluentes, outras pessoas (estes, sim, pioneiros) que acreditaram no sonho de JK. Estes ‘toscos eleitos’ (pois eram rudes em sua maioria) se tornaram os ‘construtores do amanhã’, os candangos”. O poeta faz analogia entre a civilização egípcia e a nossa, daí a referência ao Templo e ao edifício do Congresso Nacional.
Texto transcrito da antologia poética “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

A revelação do cisne na concha acústica

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Por Ana Miranda

Tento desvendar minha memória: papai estaciona a Rural Willys ao lado de um monte de carros, é preciso atravessar a pé um mato baixo de cerrado para chegarmos à concha acústica, que ainda está em obras. Estava em obras? Mas era uma imensa concha de cimento com uma sutil madrepérola do luar, diante do espelho de prata das águas do Paranoá, o luar é uma lembrança de minha irmã. Sons da orquestra afinando os instrumentos…memória ou imaginação?

Muita, muita gente, mas conseguimos sentar, bem no alto. Talvez fosse maio, junho de 1960…A paisagem noturna era misteriosa, o fundo da cena era o próprio céu, a lua do cenário era a verdadeira Lua, o escuro era a noite, as luzes talvez fossem…estrelas. E o nome do balé evocava fantasias para as crianças que se achavam patinhos feios. O lago dos cisnes. Sei que assistimos ao Lago dos cisnes em Brasília, e minha irmã tem certeza de que foi na concha acústica. Eu lembro das bailarinas levíssimas, flutuando num chão imaginário e perdido. Então…

Surgem os cisnes, lindas cisnes fêmeas com seus braços que são asas, flexíveis, ondas, iguaizinhas, os tutus de tule franzido são plumas, a concha é lago, nadam, flutuam no meu sonho infantil. O príncipe precisa escolher uma esposa, quando vê os cisnes, e enfeitiçado pela beleza das aves vai caçá-las, o lago pertence ao mago do mal, que enfeitiçou a princesa. E surge a princesa encantada em cisne, mulher belíssima na pontinha dos pés. Salta, flutua, ondula, cai nos braços do príncipe.

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O Povoamento Poético de Brasília

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Por Anderson Braga Horta

Brasília foi um gesto ousado, corajoso, temerário para alguns, combatido por muitos. Mas não foi um gesto impensado. Repito o que disse em “Notícia de Poesia em Brasília”, texto que abre o livro “Sob o signo da Poesia: Literatura em Brasília”:

A ideia de uma cidade atravessa os séculos encoberta pela névoa da Profecia, que se clarifica no sonho-visão de Dom Bosco. A Palavra – o Logos, o Verbo – está associada a ela, em particular a Criação, a Poesia. E Brasília surge, em verdade, como um Farol de autoconhecimento, de auto-realização, de integração nacional e supranacional, de fraternidade.

O planejamento e a implantação, no cerrado quase deserto, de uma cidade moderna, destinada a ser a capital de um país em ascensão – melhor ainda: a cidade nascida de uma ideia progressista, de um pensamento generoso – mexeu com o País e provocou o interesse do mundo. Natural que estimulasse a imaginação de alguns poetas. Pois, como disse e gosto de repetir, Brasília nasceu sob o signo da Poesia.

Os grandes poetas que primeiro cantaram a nova cidade foram Vinicius de Moraes, Cassiano Ricardo e Guilherme de Almeida. Vinicius na “Sinfonia da Alvorada” (música de Tom Jobim), Cassiano Ricardo na “Toada para se Ir a Brasília”, Guilherme na “Prece Natalina de Brasília”.

Brasília está, com essa espécie de batismo poético, desde o nascedouro ligada à melhor literatura nacional. A rigor, desde antes, e muito antes, se pensarmos em tudo quanto se escreveu – em tudo o que se sonhou! – sobre a interiorização da capital brasileira. Recordo, a propósito, o caso curioso de Osvaldo Orico, que publicou, no livro “Dança dos Pirilampos”, de 1923, o poema “A Cidade do Planalto”, que lhe parece cair – premonitoriamente – como uma luva.

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Prometeu do concreto

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Vida atada ao monte da memória,
Sinto no peito o fogo da angústia
Das profecias que em vão cumpri,
Lume de estrelas que um dia perdi.
A gênese do homem, estacionada
Na terra tépida, reflexo vítreo,
Lembra a ambição longínqua, corroída
Pela insidia do Olimpo, vil arbítrio.
 
A ânsia dos restos envilecidos
No cimento do sonho, combalida
Nos versos, sim, e vertendo verdades
 
Que cobrem, nuas, o chão do cerrado,
Erguendo equívoca realidades,
E, ainda assim, fecundando a vida.
 
Ah, a utopia entalhando, moldando
Puras visões na argila da vontade,
Ditando o silencio do vazio
Do mundo povoado pela cidade.
 
Oh, tais são os meus prantos combatidos
No fogo, ardor do riso reduzido
À certeza de mil dúvidas, vida
De degredado, cárcere da carne.
 
Mas a espera é o predestino,
E o presente dos deuses, falácia
De todos os dons: onde Pandora fica
 
Sobrevive, lúgubre, a audácia.
Breve o tempo destila o acintoso
Sonho e ao meu ventre logrado bica.
 
Paulo Porto, poeta brasiliense.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

Pai nosso que estais no céu de Brasília

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O cheiro é uma espécie de diálogo.
Sempre dialoguei bem com as plantas.
Fácil é dialogar com o céu de Brasília,
porque ele é claro, transparente,
imensa bola de gude a nos cobrir.
Pai nosso que estais no céu de Brasília,
dai-nos hoje o estado de graça e beleza
dos olhos cheios de água,
dos ipês acenando com mãos roxas,
do sol narciso que vem no Lago se mirar.
Dai-me o solstício das discórdias,
o zênite dos meus gozos,
a estação solar e a estação das águas:
mas, há também a estação das esperas,
época de seca de desvelos
e de enchentes de perdas.
Se o céu é o mar de Brasília,
estamos todos naufragados na luz intensa
que move o motor do nosso corpo
e a terra pronta para plantio da nossa mente.
E quando chega o planetário da noite
vêm as estrelas ciciar saudades.
Sob o céu transatlântico de Brasília
navega a nau dos operários
que a cada dia reinauguram a capital
ancorada neste porto sem água.
Difícil é dialogar com os pássaros,
riscos ariscos no céu de Brasília.

Ronaldo Costa Fernandes, poeta maranhense, natural de São Luis

Arquitetura moderna do amor

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Mônica é do plano

                         Fernando de Brazlândia

                                                         Seus caminhos fizeram
                                                                                            t

                                    e 

                                              s

                                                    o

                                                u

                                          r

                                   i

                             n

                       h

                             a

                                na estrutural

Numa tarde de c

                        h

                        u

                         v 

                         a 

lado a lado na zebrinha 

moto parcelada dele deu pau

Trocaram watzaps

combinaram de ver o por do sol na praça do cruzeiro

Mônica chegou tarde

Fernando não sabia o que fazer além de tirar fotos

o sol, no monumental, se foi

restou rodoviária do plano e um dissabor meio ponte Costa e Silva para ele

para ela, um pouco da coloração psicodélica de um fim de tarde na primavera

Combinaram novamente de se encontrar

parque olhos d’agua

caminharam e cruzaram a ponte do rio verde

entrequadras 

se entrelaçaram 

beijo com sabor de flor do cerrado e beleza de pé de pequi

perderam o eixo

esqueceram as setecentas e se perderam nas novecentas

tiraram fotos na igrejinha

e se amaram na concha acústica

terminaram em plena seca, quando floriram os ipês

voltaram junto com os flamboyants e viram a primeira chuva da janela.

 

Post Patrick Mariano

Viver é bom

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Chego a Brasília,
- Que calor é esse, meu Deus,
Tem uma lua linda,
Lua nova soprando brisa fresca.
Que venham as noites frias
Da estação das secas
E que se abra a florada
Exótica do Cerrado.
Brasília,
Acho que é um poema
Que me nasce agora,
Vem cá, dá-me um abraço,
Minha cidade linda.
Deixa-me admirar-te,
Flor digital.
Na imensidão do Planalto.
Deitada à rede de casa,
Penso que é bom viajar
E que voltar
É melhor ainda.
Viver é bom, afinal.

Post Amneres, poetisa paraibana
Poema inédito


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