O Povoamento Poético de Brasília

Por Anderson Braga Horta Brasília foi um gesto ousado, corajoso, temerário para alguns, combatido por muitos. Mas não foi um gesto impensado. Repito o que disse em “Notícia de Poesia em Brasília”, texto que abre o livro “Sob o signo…

Eduardo e Mônica

"Eduardo e Mônica é de 1980, da época do Trovador Solitário, personagem criado por meu irmão. Algumas das citações da letra tinham a ver com o dia a dia dele, que fazia natação na AABB, gostava de cinema…

Relatório de Lúcio Costa

Relatório do Plano Piloto de Brasília, por Lúcio Costa. Clique abaixo para ler ou fazer o download.      

Um aeroporto vermelho

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Por Ana Miranda

Naqueles fins dos anos 1950, íamos viajar para a sonhada Brasília. Era preciso fazer uma roupa de viagem, ter uma maleta de mão, comprar malas, capas, todo um enxoval. Tempo em que havia lirismo nas pequenas e grandes coisas. As passagens tinham sido adquiridas com muita antecedência, cada uma era um bloco de papel, as páginas preenchidas a mão, não podíamos esquecer de levar as passagens! E sentíamos uma ansiedade imensa, contávamos os dias, arrumando de um e outro jeito as malas para caber mais coisas, vou precisar disto, daquilo, a viagem era discutida, esperada, sonhada… Ainda mais uma viagem de mudança. Houve despedidas, lágrimas, promessas de cartas… Adeus, Rio de Janeiro! A viagem demorou uma eternidade, o avião parecia uma lata aparafusada, milagre que voasse uma coisa tão pesada, e o mundo lá embaixo, infinito, mares, nuvens e florestas e montanhas… A paisagem ia mudando, a mata ficando baixa, rala… Enfim, era o Planalto Central.

Lá estava a pista do aeroporto, ao lado o barracão de madeira, e terra vermelha. Pessoas acenavam à beira da pista. O avião pousou, fez a volta, encostou no terminal. Abriu-se a porta e senti o ar seco de Brasília. Descemos pela escada segurando firme no corrimão, com nossas frasqueirinhas, uma azul e uma rosa, nossas roupas costuradas para a ocasião, uma azul e uma rosa, saia e paletó, as duas meninas que se vestiam como gêmeas, e a mãe de saia justa, salto alto, segurando os cabelos ao vento, capa de viagem. Pisamos em Brasília. A pergunta, a sombra de um sonho, se tornava uma verdade feita de cimento, terra, gente. Sim, havia gente, meu pai não morava ali sozinho com o presidente e o doutro Inácio e uns lobos.

Logo vi meu pai, encostado na Rural Willys branca e vermelha, fumando, de chapéu de palha, seu carro estava estacionado perto da pista, entre jipes, Vemaguetes, um ônibus. Ele veio até nós, nos abraçamos e fomos buscar as malas, entregues dentro do terminal lotado de gente alegre e ruidosa. Era um aeroporto acolhedor, na nossa dimensão, onde as pessoas circulavam livremente, e já dava uma provinha da cidade: a construção de madeira, as grades horizontais de tábuas na fachada, para proteger do sol. Um aeroporto que pertencia ao passageiro. Logo entramos na Rural, e fomos aos trancos pela estrada de terra que nos levava à cidade. Naquele tempo a distância entre o aeroporto e a W3 parecia bem maior, a intensidade de sentimentos estendia o tempo.

Havia um antigo aeroporto, de terra batida e casa de taipa coberta de palha, chamado de Vera Cruz, quando ainda se iluminava a pista com faróis de jipes; e o segundo, provisório, com terminal de madeira e pista asfaltada. O aeroporto era muito importante para uma cidade com estradas difíceis, às vezes se demorava umas trinta horas só de Anápolis a Brasília, por terra. E chegavam levas e levas de visitantes ou moradores ou gente do governo que ainda vivia no Rio e vinha só para trabalhar.

O aeroporto era também lugar de passeio, o povo da cidade gostava de olhar os aviões pousarem e levantarem voo. Às vezes, as visitas eram anunciadas, esperadas, formavam-se pequenas multidões para receber alguma celebridade. Fomos, um grupo de estudantes em uniforme de gala, recepcionar Charles de Gaulle, homem grandão, meio desengonçado para um presidente. O aeroporto era movimentado, ali desceram e subiram muitos convidados, chamados para apoiar o sentimento mudancista: Fidel Castro, André Malraux, Golda Meir, o príncipe da Holanda, a duquesa de Kent, o presidente da Itália… E cineastas, diplomatas, jornalistas, congressistas, pioneiros, famílias de pioneiros, gente comum, meninas com frasqueirinhas, desciam e subiam Caravelles, Viscounts, aviões da Panair… Era o porto do nosso mar que era o céu. O presidente às vezes esperava pessoalmente algum convidado. Ele mesmo foi um dos maiores fregueses do aeroporto, desde os primeiros pousos e decolagens. Brasília era também destino de turismo para arquitetos, e curiosos em geral. Pessoas viajavam para conhecer o canteiro de obras mais famoso do mundo.

Dali para cá, o aeroporto mudou tanto quanto o mundo; não é mais bucólico, nem livre, é um lugar impessoal, imenso e pequeno, cheio de comercio, com excesso de gente. Somos levados aos portões, revistados e vigiados, exigem documentos e precisamos nos comportar como um rebanho. Ainda bem que temos os painéis de Athos Bulcão para nos confortar nas horas de espera, e um livro ou um encontro casual.

Texto transcrito do Correio Braziliense, de 1º de dezembro de 2013. Caderno “Diversão&Arte”

Reynaldo Jardim

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Reynaldo Jardim, em “Planaltiana”, exalta sua musa, que “se dança molhada” e “me agasalha em Planaltina”. O poeta não diz, nem está no seu dever dizê-lo, o porque de associar “essa menina de mim” a vegetais aromáticos como alecrim, hortelã, coentro. Ficam no ar o bom aroma e as razões do poeta… Em “Anjo” os versos giram em torno da que é “ainda casta corrompida amante”, sempre esperada como se apresenta no primeiro terceto do soneto: “Do Lago Sul, à beira da piscina,/ou de um quarto alugado em Taguatinga,/ela virá em sonho ou de verdade”. O seu “Hino ao Brasil” foi o texto vitorioso em concurso promovido, no final de 1987, pelo maestro Jorge Antunes, da UnB, para “escolher novo hino nacional” (428 votos contra 90, dados ao segundo colocado). A linguagem (o vocabulário) é simples, despida de metáforas; os versos (hexassílabos) e o texto curtos; em ordem direta a construção das orações. Os primeiros versos: “Da paisagem ferida/da criança lesada/Da mulher soluçando/homem triste na estrada/Desta terra traída/pobre gente humilhada/Há de bela explodir/a nação libertada (…)”.

Texto extraído da Antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

Arquitetura Nascente

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(…) Mansão. Castelo. Catedral.
Marmórea manhã subindo
Arbórea ascenção votiva Cingindo a
cidade imortal.
Volume a se conter bem perto,
Espaço a se expandir tão longe,
Mar aberto a proa do navio,
Trens Coleando rampas nos montes…
Ponte pênsil: raiz aérea
Transpondo a beleza abissal,
Avião a jato projetando
O abismo em vôo monumental.

Joaquim Cardozo, poeta pernambucano

Paulo Porto

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Paulo Porto, como informa sob o título de “O sonho de D. Bosco (I)”, inspira-se em “uma mensagem de Pessoa”. Trata-se evidentemente de “Ulisses”, que assim se inicia: “O mito é o nada que é tudo”. Daí sua conclusão, segundo a qual “O mito é a palavra dada/que se fez mundo”. “O corpo morto de Deus” (4º verso da mesma estrofe 1ª), do lusitano, recria-o Paulo Porto e temos, então: “O horto mudo de Deus”. “Sem existir nos bastou/Por não ter vindo/E nos criou.” (4º e 5º versos da estrofe 2ª) transmuda-se e torna-se “Este mito que aqui germinou (…)//Por não ter vivido/Foi ouvido e nos ergueu”. Com habilidade, o jovem poeta, o único autenticamente brasiliense desta coletânea, apossa-se da voz de Fernando Pessoa, e a funde à expressão profética ou lendária (“Ele é lenda que se fez palavra” – 3º verso do 3º quarteto) do sacerdote salesiano. Na exegese que faz de “O sonho de D. Bosco (II)”, diz Paulo Porto que “o poema aborda, de maneira ficcional, o que teria sido a visão do Novo Milênio. Minha narrativa acrescenta à tal visão outras, como o envilecimento do sonho de JK pelos militares, durante os anos da ditadura”. O ‘rio humano’ do poema seriam os pioneiros que foram sinalizados (no sentido camoniano”: ‘as armas e os barões assinalados) pelo sonho de uma cidade até então mítica, profética; porém não vieram para a construção. Deste rio humano escolhido mas que não vingou, vieram afluentes, outras pessoas (estes, sim, pioneiros) que acreditaram no sonho de JK. Estes ‘toscos eleitos’ (pois eram rudes em sua maioria) se tornaram os ‘construtores do amanhã’, os candangos”. O poeta faz analogia entre a civilização egípcia e a nossa, daí a referência ao Templo e ao edifício do Congresso Nacional.
Texto transcrito da antologia poética “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

A revelação do cisne na concha acústica

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Por Ana Miranda

Tento desvendar minha memória: papai estaciona a Rural Willys ao lado de um monte de carros, é preciso atravessar a pé um mato baixo de cerrado para chegarmos à concha acústica, que ainda está em obras. Estava em obras? Mas era uma imensa concha de cimento com uma sutil madrepérola do luar, diante do espelho de prata das águas do Paranoá, o luar é uma lembrança de minha irmã. Sons da orquestra afinando os instrumentos…memória ou imaginação?

Muita, muita gente, mas conseguimos sentar, bem no alto. Talvez fosse maio, junho de 1960…A paisagem noturna era misteriosa, o fundo da cena era o próprio céu, a lua do cenário era a verdadeira Lua, o escuro era a noite, as luzes talvez fossem…estrelas. E o nome do balé evocava fantasias para as crianças que se achavam patinhos feios. O lago dos cisnes. Sei que assistimos ao Lago dos cisnes em Brasília, e minha irmã tem certeza de que foi na concha acústica. Eu lembro das bailarinas levíssimas, flutuando num chão imaginário e perdido. Então…

Surgem os cisnes, lindas cisnes fêmeas com seus braços que são asas, flexíveis, ondas, iguaizinhas, os tutus de tule franzido são plumas, a concha é lago, nadam, flutuam no meu sonho infantil. O príncipe precisa escolher uma esposa, quando vê os cisnes, e enfeitiçado pela beleza das aves vai caçá-las, o lago pertence ao mago do mal, que enfeitiçou a princesa. E surge a princesa encantada em cisne, mulher belíssima na pontinha dos pés. Salta, flutua, ondula, cai nos braços do príncipe.

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O Povoamento Poético de Brasília

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Por Anderson Braga Horta

Brasília foi um gesto ousado, corajoso, temerário para alguns, combatido por muitos. Mas não foi um gesto impensado. Repito o que disse em “Notícia de Poesia em Brasília”, texto que abre o livro “Sob o signo da Poesia: Literatura em Brasília”:

A ideia de uma cidade atravessa os séculos encoberta pela névoa da Profecia, que se clarifica no sonho-visão de Dom Bosco. A Palavra – o Logos, o Verbo – está associada a ela, em particular a Criação, a Poesia. E Brasília surge, em verdade, como um Farol de autoconhecimento, de auto-realização, de integração nacional e supranacional, de fraternidade.

O planejamento e a implantação, no cerrado quase deserto, de uma cidade moderna, destinada a ser a capital de um país em ascensão – melhor ainda: a cidade nascida de uma ideia progressista, de um pensamento generoso – mexeu com o País e provocou o interesse do mundo. Natural que estimulasse a imaginação de alguns poetas. Pois, como disse e gosto de repetir, Brasília nasceu sob o signo da Poesia.

Os grandes poetas que primeiro cantaram a nova cidade foram Vinicius de Moraes, Cassiano Ricardo e Guilherme de Almeida. Vinicius na “Sinfonia da Alvorada” (música de Tom Jobim), Cassiano Ricardo na “Toada para se Ir a Brasília”, Guilherme na “Prece Natalina de Brasília”.

Brasília está, com essa espécie de batismo poético, desde o nascedouro ligada à melhor literatura nacional. A rigor, desde antes, e muito antes, se pensarmos em tudo quanto se escreveu – em tudo o que se sonhou! – sobre a interiorização da capital brasileira. Recordo, a propósito, o caso curioso de Osvaldo Orico, que publicou, no livro “Dança dos Pirilampos”, de 1923, o poema “A Cidade do Planalto”, que lhe parece cair – premonitoriamente – como uma luva.

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Prometeu do concreto

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Vida atada ao monte da memória,
Sinto no peito o fogo da angústia
Das profecias que em vão cumpri,
Lume de estrelas que um dia perdi.
A gênese do homem, estacionada
Na terra tépida, reflexo vítreo,
Lembra a ambição longínqua, corroída
Pela insidia do Olimpo, vil arbítrio.
 
A ânsia dos restos envilecidos
No cimento do sonho, combalida
Nos versos, sim, e vertendo verdades
 
Que cobrem, nuas, o chão do cerrado,
Erguendo equívoca realidades,
E, ainda assim, fecundando a vida.
 
Ah, a utopia entalhando, moldando
Puras visões na argila da vontade,
Ditando o silencio do vazio
Do mundo povoado pela cidade.
 
Oh, tais são os meus prantos combatidos
No fogo, ardor do riso reduzido
À certeza de mil dúvidas, vida
De degredado, cárcere da carne.
 
Mas a espera é o predestino,
E o presente dos deuses, falácia
De todos os dons: onde Pandora fica
 
Sobrevive, lúgubre, a audácia.
Breve o tempo destila o acintoso
Sonho e ao meu ventre logrado bica.
 
Paulo Porto, poeta brasiliense.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

Pai nosso que estais no céu de Brasília

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O cheiro é uma espécie de diálogo.
Sempre dialoguei bem com as plantas.
Fácil é dialogar com o céu de Brasília,
porque ele é claro, transparente,
imensa bola de gude a nos cobrir.
Pai nosso que estais no céu de Brasília,
dai-nos hoje o estado de graça e beleza
dos olhos cheios de água,
dos ipês acenando com mãos roxas,
do sol narciso que vem no Lago se mirar.
Dai-me o solstício das discórdias,
o zênite dos meus gozos,
a estação solar e a estação das águas:
mas, há também a estação das esperas,
época de seca de desvelos
e de enchentes de perdas.
Se o céu é o mar de Brasília,
estamos todos naufragados na luz intensa
que move o motor do nosso corpo
e a terra pronta para plantio da nossa mente.
E quando chega o planetário da noite
vêm as estrelas ciciar saudades.
Sob o céu transatlântico de Brasília
navega a nau dos operários
que a cada dia reinauguram a capital
ancorada neste porto sem água.
Difícil é dialogar com os pássaros,
riscos ariscos no céu de Brasília.

Ronaldo Costa Fernandes, poeta maranhense, natural de São Luis

Arquitetura moderna do amor

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Mônica é do plano

                         Fernando de Brazlândia

                                                         Seus caminhos fizeram
                                                                                            t

                                    e 

                                              s

                                                    o

                                                u

                                          r

                                   i

                             n

                       h

                             a

                                na estrutural

Numa tarde de c

                        h

                        u

                         v 

                         a 

lado a lado na zebrinha 

moto parcelada dele deu pau

Trocaram watzaps

combinaram de ver o por do sol na praça do cruzeiro

Mônica chegou tarde

Fernando não sabia o que fazer além de tirar fotos

o sol, no monumental, se foi

restou rodoviária do plano e um dissabor meio ponte Costa e Silva para ele

para ela, um pouco da coloração psicodélica de um fim de tarde na primavera

Combinaram novamente de se encontrar

parque olhos d’agua

caminharam e cruzaram a ponte do rio verde

entrequadras 

se entrelaçaram 

beijo com sabor de flor do cerrado e beleza de pé de pequi

perderam o eixo

esqueceram as setecentas e se perderam nas novecentas

tiraram fotos na igrejinha

e se amaram na concha acústica

terminaram em plena seca, quando floriram os ipês

voltaram junto com os flamboyants e viram a primeira chuva da janela.

 

Post Patrick Mariano

Viver é bom

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Chego a Brasília,
- Que calor é esse, meu Deus,
Tem uma lua linda,
Lua nova soprando brisa fresca.
Que venham as noites frias
Da estação das secas
E que se abra a florada
Exótica do Cerrado.
Brasília,
Acho que é um poema
Que me nasce agora,
Vem cá, dá-me um abraço,
Minha cidade linda.
Deixa-me admirar-te,
Flor digital.
Na imensidão do Planalto.
Deitada à rede de casa,
Penso que é bom viajar
E que voltar
É melhor ainda.
Viver é bom, afinal.

Post Amneres, poetisa paraibana
Poema inédito

Não há

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Não há

Dia mais curto que aquele…
Manhã mais longa que a mal começada…
Não há neste mundo…
Caminho sem volta
Pedido sem resposta
Olhar não devolvido
Pior sentimento que o da entrega…
Culpa maior que a dor…
Dor maior que a solidão…
Desejo maior que o da carne…
Coração vazio de amor…
Maior cego que o de olhos abertos…
Ou alegria maior que ver o SOL…
Mesmo que numa noite sem fim!!!

Post Helio Moura Filho, poeta natural de Sorocaba

Face do Planalto

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Face do Planalto

 

Sob as faces do Planalto

Novo tempo que começo

A espera de um milagre

Doce fato que aguardo

Meu afeto por você

 

Andarilho como sou

No aguardo do momento

Nova vida vim buscar

sob as faces do Planalto

 

E do instante que perdi

Novos olhos me guiaram

Ao abraço permanente

Nova vida estruturou

 

Sob as faces do Planalto

Doce vida vim buscar

Novo tempo que construo

Ao instante permanente

Leite mel a derramar

 

Post Helio Moura Filho, poeta natural de Sorocaba

Brasília de Mim

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Brasília de Mim

 

A doce terra do leite e mel

Planalto central de mim

Aos olhos de um novo tempo

Um novo passo se faz

 

Das curvas de concreto

Em um esboço e papel

Ergo minhas suplicas ao céu

Brasilia de mim

 

Do sonho que um dia apaguei

O cerrado do tempo os refez

Ao reflexo de um espelho

Que um dia ousei olhar.

 

E do caco que um dia fui

Sincero momento de gozo e prazer

Ao caminho que hoje trilho

Brasília de mim

 

Post Helio Moura Filho, poeta natural de Sorocaba

SENHORA BRASILIA

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SENHORA BRASILIA

 

Eu já sou senhora

Tenho quarenta e sete anos

Mas me sinto jovem

Forte e bonita

Sou conhecida

Nos quatro cantos

Do mundo

Não tenho orgulho

Acolho brancos, negros

Pobres e ricos

Todos que me veem

Se encantam

Admiram-se

E se apaixonam

Imponente para o mundo

Fui sonhada

Fui planejada

Hoje sou amada por todos

Sou a Capital do Brasil

Eu sou Brasília!!!

 

Post Francisco Pereira, poeta potiguar, natural de Natal.

Quando eu era menina em Brasília

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Por Ana Miranda

O meu amigo poeta disse que não gostava do hotel vermelho que fica perto do Palácio da Alvorada. Fiquei pensando nisso…Sempre fico pensando nas coisas que o poeta fala sobre Brasília, porque além de poeta ele é alguém que realmente conhece e ama a cidade. Mas ele não gosta do hotel porque é vermelho. E o que eu mais gosto naquele hotel é que ele é vermelho.

Claro, sei bem, de gustis ET coloribus non est disputand. Mas imagino aquele vermelho como o vermelho da terra de Brasília se levantando do chão, aquele vermelho das valas, das trilhas, dos rodamoinhos, vermelho da poeira, vermelho dos nossos lençóis e sobrancelhas, quando eu era menina em Brasília as minhas sobrancelhas e os travesseiros viviam vermelhos de poeira. Vermelho também das caliandras vermelhas que nascem absolutas no cerrado. Vermelho do sangue dos candangos derramado na construção da cidade e vermelho do coração do poeta que ama Brasília…vermelho da alvorada.

Mas ele também não gosta que o hotel fique tão perto do palácio, invadindo seus jardins e tirando a intimidade dos moradores. Bem, o palácio sempre foi aberto, já dizia o John dos Passos, “é um prédio singularmente belo feito de vidro e concreto branco. Flutua com tanta leveza quanto um bando de cisnes no lago de águas claras. As divisões internas também são de vidro. Perguntei-me onde, com aquelas paredes de vidro, o pobre presidente poderia encontrar um lugar para trocar de roupa ou escrever uma carta”. Presidente não tem intimidade possível, a transparência e uns bons postos de observação serão sempre o olho do povo tomando conta de quem toma conta do povo.

O autor do projeto do hotel vermelho é Ruy Ohtake, arquiteto que tinha intimidade com Oscar Niemeyer, uma amizade grande e antiga. Eles se viam todos os anos, em data marcada. Punham os assuntos em dia. Oscar gostava das obras do Ruy, e deve ter aprovado de coração e ideologia a cor vermelha do hotel. Ruy é o arquiteto das cores, seus edifícios são azuis, verdes, roxos, róseos, palhas douradas…Ele tem mesmo um dos mais bonitos projetos de arquitetura que conheço, falando de arquitetura social. Um dia ele disse numa entrevista que Heliópolis era um lugar feio. E foi desafiado por líderes comunitários dali a tornar o lugar bonito. Heliópolis era um bairro pobre nos arredores de São Paulo, com todos aqueles problemas de bairros pobres e casas muito precárias, com fachadas sem reboco.

O arquiteto conversou com os moradores, e soube que queriam reboco e pintura nas fachadas das suas casas. Ruy desenhou a rua, casa a casa, num papel e apresentou uma cartela de tonalidades. Cada morador escolheu uma cor, ou várias cores. Com o patrocínio de uma fábrica de tintas, que também deu curso de pintura de parede a moradores desempregados, a pintura foi executada. E o resultado, surpreendente, alegre, maravilhoso, transformou a comunidade, mesmo interiormente.

Além disso, foi feito um projeto de arte e educação, construíram uma biblioteca, um cineminha, uma galeria de exposições, um centro de aperfeiçoamento profissional…Mas o que importa, agora, é a cor. Um morador disse: “Para mim o azul era azul e pronto, mas agora conheço tantos azuis diferentes…” O que leva a pensar, depois dessa disputa entre prosa e poesia, que continuamos sem saber a diferença entre vermelhos e vermelhos…”

Texto transcrito do Correio Braziliense, de 06/94/2014, sob o título “Vermelho em Brasília”


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