Um telefone é muito pouco

“Cheguei a Brasília em 1974, vindo de Salvador, para fazer uma exposição. Na época, carregava sempre comigo um uma boa foto que violão. Foi nele que compus Um telefone é muito pouco.   Estava namorando uma menina que…

Relatório de Lúcio Costa

Relatório do Plano Piloto de Brasília, por Lúcio Costa. Clique abaixo para ler ou fazer o download.      

Domingo, 17 de abril de 1960

Rodovia Belo Horizonte-Brasília – A rodovia Belo Horizonte-Brasília (BR-7), com extensão de 747 quilômetros, todos pavimentados, é hoje oficialmente inaugurada, embora tenha sido entregue ao tráfego público desde 31 de janeiro último, quando foi percorrida pela Coluna da Caravana de Integração…

Quando eu era menina em Brasília

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias..., Naqueles dias... Sem Comentários

Por Ana Miranda

O meu amigo poeta disse que não gostava do hotel vermelho que fica perto do Palácio da Alvorada. Fiquei pensando nisso…Sempre fico pensando nas coisas que o poeta fala sobre Brasília, porque além de poeta ele é alguém que realmente conhece e ama a cidade. Mas ele não gosta do hotel porque é vermelho. E o que eu mais gosto naquele hotel é que ele é vermelho.

Claro, sei bem, de gustis ET coloribus non est disputand. Mas imagino aquele vermelho como o vermelho da terra de Brasília se levantando do chão, aquele vermelho das valas, das trilhas, dos rodamoinhos, vermelho da poeira, vermelho dos nossos lençóis e sobrancelhas, quando eu era menina em Brasília as minhas sobrancelhas e os travesseiros viviam vermelhos de poeira. Vermelho também das caliandras vermelhas que nascem absolutas no cerrado. Vermelho do sangue dos candangos derramado na construção da cidade e vermelho do coração do poeta que ama Brasília…vermelho da alvorada.

Mas ele também não gosta que o hotel fique tão perto do palácio, invadindo seus jardins e tirando a intimidade dos moradores. Bem, o palácio sempre foi aberto, já dizia o John dos Passos, “é um prédio singularmente belo feito de vidro e concreto branco. Flutua com tanta leveza quanto um bando de cisnes no lago de águas claras. As divisões internas também são de vidro. Perguntei-me onde, com aquelas paredes de vidro, o pobre presidente poderia encontrar um lugar para trocar de roupa ou escrever uma carta”. Presidente não tem intimidade possível, a transparência e uns bons postos de observação serão sempre o olho do povo tomando conta de quem toma conta do povo.

O autor do projeto do hotel vermelho é Ruy Ohtake, arquiteto que tinha intimidade com Oscar Niemeyer, uma amizade grande e antiga. Eles se viam todos os anos, em data marcada. Punham os assuntos em dia. Oscar gostava das obras do Ruy, e deve ter aprovado de coração e ideologia a cor vermelha do hotel. Ruy é o arquiteto das cores, seus edifícios são azuis, verdes, roxos, róseos, palhas douradas…Ele tem mesmo um dos mais bonitos projetos de arquitetura que conheço, falando de arquitetura social. Um dia ele disse numa entrevista que Heliópolis era um lugar feio. E foi desafiado por líderes comunitários dali a tornar o lugar bonito. Heliópolis era um bairro pobre nos arredores de São Paulo, com todos aqueles problemas de bairros pobres e casas muito precárias, com fachadas sem reboco.

O arquiteto conversou com os moradores, e soube que queriam reboco e pintura nas fachadas das suas casas. Ruy desenhou a rua, casa a casa, num papel e apresentou uma cartela de tonalidades. Cada morador escolheu uma cor, ou várias cores. Com o patrocínio de uma fábrica de tintas, que também deu curso de pintura de parede a moradores desempregados, a pintura foi executada. E o resultado, surpreendente, alegre, maravilhoso, transformou a comunidade, mesmo interiormente.

Além disso, foi feito um projeto de arte e educação, construíram uma biblioteca, um cineminha, uma galeria de exposições, um centro de aperfeiçoamento profissional…Mas o que importa, agora, é a cor. Um morador disse: “Para mim o azul era azul e pronto, mas agora conheço tantos azuis diferentes…” O que leva a pensar, depois dessa disputa entre prosa e poesia, que continuamos sem saber a diferença entre vermelhos e vermelhos…”

Texto transcrito do Correio Braziliense, de 06/94/2014, sob o título “Vermelho em Brasília”

Improviso Em Trequada

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Quando saí do quadrado;
Vi que os andares não se acabavam no seis
Que o mundo era muito maior que
O eixão e a W3

Fora do quadrado;
Valorizei o chão, o vão, pintar o asfalto
Sangrar o nariz.
Correr, cair e levantar
Debaixo do pilotis.

Voltar pro quadrado;
É um plano, é um vôo
É ser piloto do próprio avião

Aprendi que a voltinha no parque
Demora mais que imaginava.
Aprendi que o silêncio de muitos
fazia valer a quem se falava.

E pouco a pouco, na planitude,
Vi passar muitos e largos anos
Como largas eram as ruas e escolhas
no meu viver cartesiano.

Cevs Volpi, poeta carioca
Jóta Stilben, poeta brasiliense

Octavio Mora

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Octavio Mora situa-se entre os aqui já referidos que pensam na cidade “Antes do tempo”, em sua pré-história, em priscas eras. Os peixes antediluvianos, as águas das chuvas, os rios que haveriam de surgir. O protótipo da cidade “feita/de nuvens, como as nuvens, no ar”. As imagens que o poeta constrói, sutis, levíssimas, quase diáfanas, escapam ao nosso domínio, e se vão somando, para dar corpo ao poema. E, ao final, a revelação clara, categórica: “Surge a cidade, feita/de luz, onde se escondia./E antes de ser, já é: perfeita” (“A cidade”). O segundo poema de Octavio Mora, “Paisagem”, desenvolve-se no mesmo tempo. A terra, as águas, a luz, o mar extinto anunciam a cidade que “aos poucos surge”.

Texto transcrito da antologia poética, “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

UM RIO CHAMADO CORAÇÃO

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O rio não responde

quando lhe pergunto onde vai,

ele de meu coração não sai.

Meu coração é feito dessas pedras

que pelo rio vão rolando

como lágrimas

daqueles que o perderam.

Meu rio é feito dessas lágrimas

que salgam o mar de lama

que nos cerca.

Mas meu mar não é azul nem verde

ele tem a cor das raízes

das árvores que no leito do rio

vão tombando.

E com minhas lágrimas

meu rio vai secando

e meu triste coração murchando.

 

Nicolas Behr, poeta natural de Cuiabá.

Poema transcrito do Jornal “Ecoação”

BRASÍLIA

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Se fosse abraço

me fundiria em ti.

Se fosses luz

me esculpiria em tua sombra.

Se fosses orvalho

me derreteria em teus lagos.

Se fosses ilusão

te sonharia licenciosa.

Se fosses remanso

me embalaria nos teus côncavos.

Se fosses tudo

o que és,

Brasília dos mil poderes

mágica alucinação

do desafio

se fosses

então eu seria em ti.

 

Sofia Vivo, poetisa natural de Montevideo, Uruguai

Poema transcrito do acervo da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília

BRASÍLIA

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Beleza que contorna a norma brusca, e renasce

Se torna inumerável de vida

Faz do céu uma plataforma azul

Onde mora o mistério do simples e infinito.

 

Em anos, dias mais belos e puros

Dançarei nos seus frágeis outonos

Cúmplices de seus seios brancos

Sem medo ou fúria de falsos donos

 

Mas nessa primavera de tristezas,

Acalento todas nossas saudades desatinadas

ao som de todo nosso silencio amargo

Brincando fazer tuas esfinges de sol coroadas.

Amo mesmo tudo que não posso tocar, mas que me toca sem sentir.

Thais Lima Rocha

Poema transcrito do Concurso Nacional de Poesias

Quando saí do quadrado

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Quando saí do quadrado;
Vi que os andares não se acabavam no seis
Que o mundo era muito maior que
O eixão e a W3

Fora do quadrado;
Valorizei o chão, o vão, pintar o asfalto
Sangrar o nariz.
Correr, cair e levantar
Debaixo do pilotis.

Voltar pro quadrado;
É um plano, é um vôo
É ser piloto do próprio avião

Aprendi que a voltinha no parque
Demora mais que imaginava.
Aprendi que o silêncio de muitos
fazia valer a quem se falava.

E pouco a pouco, na planitude,
Vi passar muitos e largos anos
Como largas eram as ruas e escolhas
no meu viver cartesiano.

Post de Cevs Volpi e Jóta Stilben, via Facebook

Brasília revisitada

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Para Adirson Vasconcelos

Que sei de ti?

Que sei de mim?

Volto às origens de tudo: barro.

Tumulto e barro mal comprimidos

no largo espaço do meu espanto.

Vagas lembranças de um pé-de-vento

e o redemoinho varrendo sonhos.

Desde o começo desta epopeia,

homens e bichos se circunscreveram em puídos mapas,

em utopias de sonhadores do amanhã.

Volto ao passado,

Vejo o presente

e a solidão frutificada.

João Carlos Taveira, poeta mineiro

A marcha do Apocalipse

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Jogaram os homens lá fora

Jogaram os homens na rua

Jogaram as mulheres lá fora

Jogaram as mulheres na rua

 

Nasceram meninos lá fora

Nasceram meninas na rua

 

Jogaram os detritos lá fora

Jogaram os alimentos na rua

Jogaram os farrapos lá fora

Jogaram as vestes na rua

 

Nasceram mendigos lá fora

Nasceram mendigos na rua

 

Jogaram a justiça lá fora

Jogaram o marxismo na rua

Jogaram a fome lá fora

Jogaram a luta na rua

 

Nasceu a miséria lá fora

Nasceu a desgraça na rua

 

Jogaram Jesus lá fora

Jogaram Barrabás na rua

Jogaram o amor lá fora

Jogaram o ódio na rua

 

Nasceu a vida lá fora

Nasceu a vida na rua

 

Heitor Humberto de Andrade, poeta baiano.

Poema transcrito do livro “Corpos de concreto”

Choro sorrindo

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O Clube do Choro

É um pedacinho do céu

Na noite de Brasília

É uma sonífera ilha

De sons-maravilhas

Sortidos & Alados

O Clube do Choro

É um bordado

Uma sinfonia

Usina de notas

Brasileiríssimas

Soltas no palco

Iluminado por carícias

Da citara de

Aveno de Castro

Lá, o não é nunca

E o sim tem o som

Sempre sincopado

Quando vou ao

Clube do Choro

Ahh, Chiquinha

Não vou sozinho

Vou sem medo

Quando não bebo

Bashô

Bashô

Bashô o santo

Agora todo Japão é banto

África

Olhai em si

O que não é haicai

É oriki

Teatro Nô

Em jogo de Ifá

My Butterfly

Vai piorubá

 

Luis Turiba, poeta pernambucano

Poema transcrito do livro “Qtais”, 7 Letras

CASTRO ALVES, FILHO DE BRASÍLIA

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Patrimônios, os dois, da humanidade;

deles são a petúnia, a sálvia, a gília

dos canteiros de flores da cidade.

 

Ambos buscaram (noites de vigília!…)

conseguir, preservar a liberdade.

Esse bem, garantia de família

e riqueza maior da sociedade.

 

“Cecéu”, um apelido da infância.

Por símbolo o condor – gênio entre as aves -,

para um gênio de andina culminância.

 

No céu da poesia ele é um astro:

Antonio Frederico Castro Alves.

A mãe: Clélia Brasília Silva Castro.

 

José Peixoto Júnior, poeta pernambucano

Poema transcrito da antologia poética “Sonetos de Bolso”, de

Jarbas Junior e João Carlos Taveira

Moacyr Félix

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Moacyr Félix vê a Taguatinga do tempo dos pioneiros, quando tudo era improviso e desconforto. O Lago Paranoá, projeto ainda, iria ao paulatino represamento, submergia vilas, i. e., as chamadas “invasões” (favelas) que hoje dormem no fundo de suas águas. Banhava o altiplano apenas a lua, que “era um lago podre”. Mesas de madeira, chão batido, moscas, salaminho, cachaça, constituíam o mundo do poeta. Então, em cenário mais ou menos de far-west, enquanto a noite caia “entre as garrafas”, os companheiros se transportavam para os “louros tempos”, a estabelecer os mais agudos contrastes entre uma civilização consolidada e antiquíssima e o mundo bruto a que vieram ter quando ainda terminava a década de 50.

Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

O império tapuia do cerrado

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Por Ana Miranda

O cerrado em quase todo o seu território foi povoado pelos índios jês, que eram tapuias, o que foi chamado por Paulo Bertran de “O império tapuia do cerrado”. Um império indígena. Bela a imagem com que Bertran homenageia os índios do cerrado, porque império, além do território governado por um imperador, significa estado muito importante ou vasto, de caráter mesclado. “Império sólido, rústico, incomunicável à língua-geral e aos modos comuns mais flexíveis…”

Tapuia foi o nome dado pelos índios que falavam tupi-guarani aos que se expressavam em outras línguas. Se falavam uma língua diferente, também os costumes eram diferentes, como o de morar em casas cavadas na terra e não naqueles casarões de palha. Os jês eram povos errantes, savaneiros, guerreiros bravios, caçadores, caceteiros, hábeis em quebrar crânios humanos. Avessos ao contato com o branco, com quem lutaram por longo tempo. Muitos são os nomes de famílias, grupos, tribos, etnias. Akwen, avá-canoeiro, tenetehara. Goiases, quirixás ou crixás do Planalto, régulos matadores, acroás. Carabás. Havia tapirapés nas margens do rio Tocantins e guajajaras e aricobés que eram ilhas tupis. Acoroaçus. Açus, xacriabás. Caiapós, xavantes, xerentes. Araés, abaixo do rio das Mortes. Os temidos canoeiros, e os apinagés que são timbiras ocidentais, e orientais os krahós. Os preguiçosos capepuxis no Araguaia e os arauaquis ou aroaquis e bilreiros. Javaés, xambioás…Bareris. Os carajás, carajaúnas, carajapitanguás, “moles e patifes”, dizia um capitão-mor. Xacriabás removidos. Cayapós de mossâmedes, gorotires, gradahus…Caiapós eram “o mais bárbaro e indômito de quantos produziu a América.”

Os goiases, ou goiazes, ou goyazes, que deram o nome a Goiás, eram comedores de caranguejos, goiá é caranguejo em tupi, diz Bertran. Da palavra Goiás derivam goianazes, goitacazes e talvez cataguazes. Dos goiazes derivam goianos e alguma gente de Brasília, com olhos puxados. Quem tem um espelho? Os goyazes eram bonitos, de pele clara, acolhedores, de trato ameno. Interessante, diz Bertran, no século 18 ocorriam casamentos de brancos com gente da terra, gentios, ou índios, quase não havia mulheres brancas e aconteciam esses casamentos, mesmo de senhores com índias, que davam ensejo à adesão da tribo aos interesses senhoriais, alguns senhores passavam a ter, pelo casamento com uma índia, poder parental sobre a gente indígena, e usavam esse poder para conseguir escolta durante viagens, conhecimentos de caminhos e geografias, de remédios, de alimentos, proteção a suas fazendas, descobertas de ouro e minérios, pois, se o índio não usava o ouro em suas artes, com certeza sabia onde encontrá-lo brilhando à madre das águas e entre cascalhos e rochas.

Casar-se com uma índia, revelou Bertran, eram muitas vezes um motivo de dignidade. Aumentava o poder senhorial com um exercito de guerreiros não inimigos. E Bertran imaginou colonizadores solitários a namorar belíssimas índias, tornando-se cunhados de guerreiros e senhores da natureza, a buscar recursos e sobrevivência. Ele se lembra, mesmo, de um decreto real estimulando a povoação do território, ainda que fosse com filhos de colonos com índias. Crianças e adolescentes indígenas iam se criar em lares vilarengos. Rapazes iam para Portugal, e voltavam padres. Índias “lindas, ainda moças, muito claras e benfeitas” eram mandadas de presente. Alianças nupciais com bandeirantes. Noites inesquecíveis de amores. Os catequisados fingiam que trocavam de crença. Não mais reinavam.

Acabou-se o império dos tapuias. Foi uma grande perda que a historia não soube evitar. Uns grupos ficaram reduzidos a poucos sobreviventes, ou foram habitar em outras matas. Vencidos, aldeados. Morriam famintos, acossados, ou de doenças brancas. Os pacíficos eram escravizados. Os bravios eram mortos. Matanças por séculos. De uns 30 mil restaram uns 4 mil, em meio século, o 19. O cerrado perdeu o seu império vermelho. Ficou a terra vermelha. Ficaram rios vermelhos, serras douradas…A musica indígena é rica, variada, única e universal. A cerâmica, a arte das plumas, as cestas, os grafismos, os mitos, as lendas, o modo de conviver com a natureza, as ciências e magias… tudo rico, variado, único e universal. Tudo nosso. Um tesouro que faz muito mais falta do que o ouro levado.

Texto transcrito do Correio Braziliense, 5 de maio de 2013.

PALAVRAS À CIDADE LIVRE (Hoje Núcleo Bandeirante)

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Há trinta anos,
quando aqui cheguei,
no Planalto Central,
em Brasília,
ainda te encontrei
intacta,
na tua verdade pioneira,
na tua realidade rude, mas fecunda:
áspera imagem
do “far-west” brasileiro,
ó Cidade Livre!
Livre! Haverá adjetivo
com mais oxigênio e gloria?
Tuas ruas comprimidas
de rústicos chalés,
barracos-bares,
lojas atulhadas de mercadorias, bugigangas,
em improvisadas armações,
o lôbrego, úmido mercado,
contudo,
tão cheio de produtos da terra
e sombrio pitoresco,
o restaurante original
com culinária selvagem,
que ostentava
todas as carnes de caça do Brasil:
até carne de jacaré ou de cobra…
Hoje estás mudada:
despiste o traje
semibárbaro,
e te mostras garrida e urbana
- mais que urbana, moderna –
com a toalete higiênica e pálida
da Civilização!
Estás destinada ao Progresso:
a sorte que não pára.
Que traz todos os presentes
e também o seu oposto,
porque a Lei da Vida
é sempre esta:
falhar, enfrentar dificuldades,
antes de se criar o Bem…
Chamaste hoje Núcleo Bandeirante.
Uns quiseram te conservar
em redoma de museu,
outros simplesmente te destruir
(haverá algo mais fácil – e terrível –
que a destruição?).
Bandeirante é vocábulo
que se ajusta bem a ti,
à tua origem,
a teu destino de constante mutação,
de mudança para o engradecimento…
Ah! o velho Brasil tradicional,
de imensas propriedades e da escravidão,
que se consolidou à custa do heroísmo
e da ambição
(mas também da violência,
da opressão e de nefandos crimes)
será assimilado
pelo Brasil Novo
da Democracia,
do Povo Vencedor,
do Novo Patriotismo,
que é fraternidade viva, carnal,
e não há símbolos abstratos
e palavras grandiloquentes,
sem sangue, sem dor, sem amor,
e tu, Cidade Livre ou Núcleo Bandeirante,
és uma célula viva, resplandecente,
do Brasil Novo,
que explode em Mato Grosso, Goiás e Pará,
Rondônia ou Roraima,
que se levanta e assimila
velhos Brasis,
cristalizados, superados ou carcomidos,
pois o Progresso é a Lei da História!

Cassiano Nunes, poeta paulista, natural de Santos
Poema transcrito da antologia “Brasília: Vida em Poesia”, de Ronaldo Alves Mourinho

OS OVOS DE BRASÍLIA

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Clarice Lispector escreveu:
“A luz de Brasília fere o meu pudor.
A solidão me deixa perdida.
O ar seco suga a minha pele.
Sugiro que coloquem, no centro, este símbolo:
um grande ovo branco”. Estas setas
não picaram a nova Capital,
mas  gongaram a minha descoberta:
os ovos que Brasília nos oferta.
O de codorna, no Memorial JK.
Em parêntese: Juscelino, novo
Colombo, botou o cerrado em pé.
Deve ser de dinossauro o principal,
servido em duas metades,
na mesa do Congresso Nacional.
O de pássaro da fé,
ao lado da Catedral.
O de cobra,  no Instituto Histórico
e Geográfico, enterrado no tempo.
Os dois bem duros para cozinhar,
na igreja Santa Edwiges,
padroeira dos endividados.
A casca fina só na aparência,
pois com proteção divina,
na Assembleia de Deus.
E o pedaço da casca que restou,
no Museu do Índio.
Aquece esta ninhada, de Dom Bosco
a voz premonitória: “E nascerá
ali a nova civilização”,
que alimentará o mundo obviamente
à força de seus ovos.
Por agora, Brasília aberta aos ventos
ouve os gemidos de reivindicação.
Sua luz assenta o foco na verdade.
Sua solidão pensa o futuro da dor.
E a seca ovoide enfim se quebrará
na omelete do amor.

Berecil Garray, poeta gaúcho, natural de Passo Fundo
Poema transcrito do livro “Brasília: Vida em Poesia”, antologia de Ronaldo Alves Mousinho

BRASILIANAS

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I
O céu se abre ao infinito
Teus espaços são a capital dos meus pensamentos
Sorri o busto que fundou esse sentimento monumental
De poder, nas tuas letras, estar agora, brasiliana

II
Inauguraram um monumento
Mas é a tua estampa
Que transforma meus pensamentos
Em traços curvos
Que nem Niemeyer sonhou

III
Tempo Estio
Em que corpo e alma tem mais sede
Embora muita água possa ver, em realidade
Não é fácil atingir teu lago
Mesmo assim,
Vou forjando uma orla
Pela beira –
Mar que, um dia, em sonhos verei

IV
Pesadelo alado
Que voa ao Norte
Mas é para o Sul que vertem tuas veias
No entanto, a alma, condor que vaga
Do alto vê: é um avião!
Quando enfim, ao leitor regresso
Eis que uma voz de metal me chama
Novamente ao teu aeroporto!

V
Ando em tua perspectiva
Por uma avenida sem fim e sem nome
Estonteante velocidade colorida
De sonhos em movimento
No rosto do menino
As luzes de uma cidade perdida
Olho para frente
O sinal deve abrir
(Qual será o caminho mais curto até o teu ser?)

VI
Abrindo picadas no teu seio
Pelo cerrado
Acreditando na visão
Vou quebrantando tua fé de pedra
Esse plano de gelo, bloco de certeza
De quem não quer me habitar
E sentir a paixão dos pioneiros
Com a força
E os sonhos
Nos quais sou operário
Que despenca de todos os andaimes

VII
Brasiliana tem olhos de gata
Iris de velha xamã
Com tuas seitas
Seus novos mistérios
Feiticeira do altiplano
De bruxa, de benzedeira
E não foi a cruz em sua fortaleza
Que lhe livrou desse feitiço
De possuir toda a gente
E a cidade
Que no inicio
Não tinha Deus
Não tinha amor, nem nada
Passou a crer mais na vida
E os templos: a natureza!

VIII
Na noite em que parti
Levantei poeiras e dúvidas
Na bagagem que juntei
Um mapa sem legenda
E o coração como bússola
Apenas na procura de teus jardins em mudança de estação
Porque meus pastores
São os pássaros que desenham em teu céu
As luzes coloridas desses dias

IX
O expediente
O calhamaço, o ouro e o calmante
O lilás de bocas trêmulas
De longe brilham e fazem fama
A Brasiliana que me engana
É uma miragem em reluzente deserto
Sinuosa, prematura e disfarçada
Que agora caminha distante
Batendo asas
Buscando a mortal travessia
Em saltos loucos
Nos meios-fios de Brasília

Marcelo Ferreira Carámbula, poeta gaúcho.
Poema transcrito da lista de ganhadores do “Prêmio Cassiano Nunes”

MEMÓRIA FUTURA

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Mesmo coberta
Brasília é uma cidade
nua. Intervalos,
espaço, o plano em que se inventa
se despojam, verticalmente
Planalto, Brasília salta
e se repete para o alto.

E comemora-se, num céu
declarado, num horizonte
preciso, como quem sabe
o que faz de si
e guarda o rosto explicito.

Em que cidade os vãos
se mostram com tanto
azul, e ventos e vertentes?
Onde limites
Que se correspondem, onde
lacunas que se preencham
apontando
sua vizinha evidência;
onde é que
guarda tanto sentido
em sua indiferença?

Os edifícios, nítidos
como cactus, contra uma terra
envolta em terra
se amaciam e se retomam em lago.
E o branco é mais longo
no assalto do poente,
e a técnica se arredonda
na memória da Acrópole
e pelo ser
se aconchega, nas dobras
do existente.

Nada se aglomera
ou se expulsa
nesta paisagem onde a razão
é o sensível e sua imagem.

Aqui se faz o homem:
geografia-geometria
e a historia murmurando
amanhã
nas curvas da poesia.

Aqui a terra se ergue,
lapidada em seu proveito,
aqui medita
o que a pátria espera
de nós, por nós,
na nudez dos que pensam.

Lupe Cotrim Garaude, poetisa natural de São Paulo

Três poemas de Heitor e outros

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A Alain Robbe-Grillet
 
Eu converso
com minha
adega
com vinhos
          preciosos
Converso
com meu
guarda-roupa
cada camisa
cada calça
é um grande
          papo
Converso
com sandálias
e sapatos
e com minhas
            meias
Não gosto
de gravatas
por isso
deixo-as
escondidas
no covil
das etiquetas
Converso
com o chuveiro
e com o
vaso sanitário
A pia
sem dúvida
é a grande
estrela
do banheiro
Converso
com a estante
povoada
de grandes
      astros
Verdadeiro
universo
de deusas
e Deus
Converso
com as
frutas e
com todas
as manifestações
da natureza
Converso
com o lixo
industrial
com o maior
respeito
Enfim
converso
com tudo
que existe
As pessoas
não são tão
importantes
como pensam
com seus
         egos
monstruosos.
 

CONSISTÊNCIA

À memória de Rubem Valentim
 
Meu lirismo está repleto
de amor
Meu amor consiste em ser fiel
às varrições do mundo
Cada dia ergo uma nova ética
ao momento maior do meu coração
Meu cérebro é uma usina ardente
intransigente com leis
legislando o bloqueio dos homens
Meu código é o poema diário
que escrevo com eles
sejam eles quem forem
Meu poema é um poema vigoroso
porque está farto
de formas esquálidas.
 

PÁSSAROS

À memória de José Godoy Garcia
 
Nunca
deveríamos temer
o nunca mais
 
o desprendimento
nos faz pássaros
voando
 
eternamente
na mente
do cosmos.
 
Heitor Humberto de Andrade, poeta baiano.
Poemas transcritos do livro “O Cão Selvagem”, Siglaviva

BILHETE PARA ADIRSON

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Caro Adirson, suas histórias
não são contos, são memórias
de Brasília, de suas glórias.
Acordes de violoncelos
nas encenações de Otelo;
validadas promissórias
em as outorgas uxórias
da cidade em formação.
 
Você é um aventurado
do mistério de obá,
fecundo, predestinado,
no rubro pó do cerrado
bem cedo chegou pra cá.
Trouxe a perspicácia e a pena,
a alma ardente e serena,
a garra pela notícias
novas, bem quentes, notórias,
o gosto pela pesquisa,
as narrações sem malícia,
a mais genuína historia.
 
 Assim, caríssimo Adirson,
tão zeloso e devotado
Barão do Paranoá,
continue investigando,
juntando os sagrados elos,
pontos, planos, paralelos
da custosa conexão,
cosendo o caso perfeito,
com manemolência e jeito,
nas trelas do coração.

Antonio Temóteo, poeta baiano, natural de Piatã.


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A passagem de Tom Jobim e Vinícius de Moraes pelo Catetinho

O texto de Antônio Carlos Jobim Setembro, sertão no estio. Frio seco. Altitude aproximada: 1.200 metros. Ar transparente, céu azul profundo, primavera e pássaros se namorando. Campos gerais, chapadões dos gerais. Cerrado e estirões de mata à beira dos rios.…

Alvorada de Espelhos

Alvorada de Espelhos Por Clemente Luz O imenso louva-a-deus traçado no papel, antes promessa da presença da cidade, já tem forma e base sólida no chão do planalto. No local mesmo onde a visão do profeta viu “que se formava…

Bernardo Sayão

Da morte emerges, Bernardo Sayão, e com que pureza! Assim te revemos, os que nunca te vimos, e não há em nós nenhuma surpresa. Assim te revemos, sertanejo tranqüilo, no retrato que te faz surgir num descampado, o olhar firme, …