O Povoamento Poético de Brasília

Por Anderson Braga Horta Brasília foi um gesto ousado, corajoso, temerário para alguns, combatido por muitos. Mas não foi um gesto impensado. Repito o que disse em “Notícia de Poesia em Brasília”, texto que abre o livro “Sob o signo…

Eduardo e Mônica

"Eduardo e Mônica é de 1980, da época do Trovador Solitário, personagem criado por meu irmão. Algumas das citações da letra tinham a ver com o dia a dia dele, que fazia natação na AABB, gostava de cinema…

Relatório de Lúcio Costa

Relatório do Plano Piloto de Brasília, por Lúcio Costa. Clique abaixo para ler ou fazer o download.      

Absolvição

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Absolvição

A poesia que eu conheço é a poesia das sirenes, das páginas policiais,
dos gritos ignorados nos corredores dos hospitais públicos; a poesia que eu conheço é a poesia do preconceito,
a poesia dos presídios, dos asilos, dos prostíbulos, das calça- das habitadas;
é a poesia do câncer que devora,
do filho que não vinga, do filho que não volta, da bala perdida que nunca se perde,
do pai de seis e do pai aos dezesseis;
a poesia que eu conheço não voa, não anda, rasteja.
A poesia que eu conheço jamais será declamada porque existe para ser cuspida,
vomitada, tragada, bebida, injetada;
a poesia que eu conheço existe para ser gritada na voz do andarilho,
do velhaco, do moribundo, do bêbado, do sujo, do esfomeado, do marginal e do louco.
Porque os loucos também sofrem.

Alegorias

A poesia grudou no céu da minha boca, na minha língua solta, 
nos meus lábios secos. 
Ai de ti! 
Não me olhes! 
Não me beijes! 
Ou te tornarás um verso avesso, 
o espelho de minh’alma inversa, 
nas estrofes tortas de teu corpo travesso, que se atravessa, 
que se arremessa sem pressa, 
refletido em mim. 
Em mim.

Tereza Du’Zai, poetisa natural de Itajaí, SC

QUEM SOU?

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I  Sou as quatro estações
    da primavera
    todas juntas!
 
II Sou o sopro
    um suspiro,
   saliva do mar, sorrio.
 
III Sou a dúvida transparente
    estrela ou cometa
    periclito sem planeta.
 
IV Sou a graça indecifrável
    axioma, de teu ser
    talvez aroma.
 
V Sou enigma
    do concerto universal
    desafinado!
 
VI Sou musa,
     sou mulher,
     sou as flores do mal!
 
Sofia Vivo, poetisa uruguaia, natural de Montevideo
Tradução de Antonio Miranda

ABSURDO TEMPO ARTEIRO

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Absurdo perfil que contorna
tua sombra, meu pai,
cansada de tua morte
exijo teu retorno,
regressa ao menino eterno
guardado em segredo trêmulo
incolor razão
que abriga minha inocência.
 
Tempo ímpio
transgressor de minha impotência
te afastou das bordas
de minha essência
sem me permitir aprofundar
o gesto em tua presença.
 
Arteiro eco
empenhado em transcrever
os sons do olvido
em tua partida tão latente
desfazendo-se em reflexos
de vingança,
a ausência
de teu espectro contundente.
 
Sofia Vivo, poetisa uruguaia, natural de Montevideo
Tradução de Anderson Braga Horta

Candango, pioneiro, brasiliense

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Candango,
pioneiro,
brasiliense
Por Conceição Freitas
 
São dois os gentílicos de Brasília, candango e brasiliense. Some-se a eles um quase-gentílico, pioneiro, que tem sentido próximo no dicionário da capital inventada. Cada um tem sua singularidade. Há pioneiros que não gostam de ser chamados de candangos – ou, pelo menos, não gostavam, ao tempo da construção de Brasília.
Candango era o peão de obra, o oreia-seca que pelejava até 18 horas seguidas. Usava chapéu, calça e camisa de tecido, botina puída e, muitos deles, carregavam um canivete e um caneco de alumínio amarrados ao cinto.
Pioneiro era o arquiteto, o engenheiro, o funcionário da Novacap ou das construtoras, o comerciante da Cidade Livre. Mas, lato sensu, pode designar quem chegou à cidade nos primeiros anos. Embora, entre os mais antigos, haja uma disputa. Para alguns, pioneiro é aquele que chegou antes de 1960. É tanto que há duas entidades que representam os que aqui chegaram no começo dos tempos: a Associação dos Candangos Pioneiros de Brasília e o Clube dos Pioneiros de Brasília. A primeira só aceita quem chegou até 1960. O segundo é mais elástico.
Candango trazia o ranço etimológico. Era o nome que africanos escravizados davam aos portugueses. Segundo Nei Lopes, em Cuba, o termo ‘candanga’ significa “bobalhão, mentecapto, doentio, enfraquecido”.
Desde que ficou consagrado pelo uso, os dicionários acrescentaram a nova acepção ao verbete ‘candango’. Qual seja: “Nome que designa cada um dos operários que trabalharam nas grandes construções da cidade de Brasília, geralmente oriundos do Nordeste do Brasil”. Por extensão, “cada um dos primeiros habitantes de Brasília”.
Como a realidade é muito mais rica e mutante que o conteúdo de um dicionário, candango também designa o nascido em Brasília e aquele que habita a cidade. Tudo depende do gosto do freguês. Se alguém diz que é candango, logo se entende que ele é da capital do país.
O gentílico brasiliense é mais palatável, porém destituído da força presente em ‘candango’. Brasiliense é o natural e/ou habitante de Brasília, e de Brasília de Minas e de Brasiléia, no Acre. No século 17, brasiliense era gentílico do Brasil. Depois, o nascido no país passou a ser denominado brasileiro.
Brasília é uma das unidades da Federação com dois gentílicos consagrados – candango e brasiliense. Santa Catarina é outra (catarinense e barriga-verde). Amazonas, idem (amazonense e baré). Espírito Santo, ibidem (capixaba e espirito-santente). E Rio Grande do Norte (potiguar e rio-grandense-do-norte). E ainda Rio Grande do Sul (gaúcho e rio-grandense-do-sul).
Vê-se que gentílico não derivado do nome da unidade da Federação é mais forte, mais pleno de significado. Em Brasília, porém, há beleza, sentido e viço nas duas formas, candango e brasiliense.

Texto transcrito do Correio Braziliense, de 07/04/2015

Ronaldo Costa Fernandes

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Ronaldo Costa Fernandes, confronta a Catedral dos fiéis, “reiterativa como um terço”, com a outra, que apenas monumento se lhe afigura, sendo assim “furtiva”/(…) passante e fria”; “…não é mística”: “São cadeiras/as fornalhas das máquinas,/o pequeno inferno/dos pecadores/que ilumina cada igreja”. E prossegue: “Assim, crua,/na linha dissidente/do horizonte,/a Catedral não é obra da arquitetura/nem templo/nem casa de oração. Na estrofe derradeira é ainda mais aguda a contundência: “A Catedral, na Esplanada dos Ministérios,/é apenas repartição pública,/prédio burocrático,/Sé de almas expedientes”. A leveza da ave (que estará no lago agradável, puríssimo, não suscita questionamentos ao espírito mais contestador: “A garça II” diz que o pássaro, fixo, “é flor do cerrado”.
“Tomada de susto,/abre asas,/é flor que voa (…)”. O poeta busca a confirmação do que lhe dita a sensibilidade e a imaginação fértil: “Vem, me diz, não és/garça e flor?”. E a garça, por fim, transmuda-se. A metamorfose surpreende. Suas penas são agora pelos e sutil referência: “teus cabelos voam,/qual asa de garça”.
 
Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

Luzes Mecânicas

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Aos ventos que hão de vir;
Arrastando o ar miscigenado,
Em DNA singular, Candango,
Onde aurbis é oinspirar.

Alenta-se os monumentos,
Da Catedral a Torre Digital,
Excede-se o natural,
Da Ponte JK aos Ministérios.

Ascendevermelho-pungente,
Barro que adentra a cosmopolita
Noite que cega, luzes mecânicas.

Além das asas sul e norte,
E eixos desconcertantes, paira,
Há algo utópico, centros brasilienses.

Pablo B.P. Santos

TARDE

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Das cabeceiras do verão
o tempo incerto
traz para a cidade
um domingo deserto.
                                        Os estacionamentos abandonados.
Dentro dos muros
de um domingo morto
esta cidade pára.      
                                       A solidão nas superquadras.
Janua coeli.
Stella vespertina.
Tarde. Tarde.
Inconsolatrix.
                                        A poeira no claro espaço das brisas.
 
H. Dobal, poeta piauiense, natural de Teresina.

VICTA CAUSA

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A cidade dominada
pelos pontos cardeais:
           Norte
           Sul
           Leste 
           West.
A cidade dominada
pelos gabaritos da monotonia.
Pela arquitetura de massas.
                 Dos mármores.
                 Dos vidros.
A cidade fechada
nos seus espaços.
A cidade
Indiferente à causa dos vencidos.
 
H. Dobal, poeta piauiense, natural de Teresina.
FIM DE EXPEDIENTE
 
Passaram as siglas da manhã
Perdeu-se a paz do meio-dia.
Ficaram
                              do esplendor sub-letal,
                              das divisões de vidro,
                              das cortinas de cânhamo,
                              do ritual dos processos,
                              da cidade crucificada no planalto,
um fim de tarde e os signos da noite.

 H. Dobal, poeta piauiense, natural de Teresina.

PLANALTITUDE

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Neste planalto de azul silêncio
a vida tão me quis sem a medida
convencional do tempo, porque aqui
atravesso o dia e a noite como atravessava
o quintal de minha casa, não sabendo
da evolução constante e rude que passeava
por demais despreocupada.
Luzes de um outro lado/ladeado
trans/migrantes de nada/ar navegam anunciantes
por um lago de sal/lágrimas, resultado de rios
com amputados braços.
E virei pássaro sem inocência no aberto céu
onde não há papagaio, mas a segura/herança
e segurança nos multi/lados, onde salvei-me
de ter mutiladas as minhas asas de ouro.
 
Fernando Correia Dias, poeta português, natural de Penajoia

TEMPOS DE BRASILIA

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Eis o sertão cerrado,
cerrado mas aberto
em flores de asperezas.
Que árvore está florindo?
Cada qual tem seu tempo.
Estação? Quaresmeira.
Pelo retrovisor,
uma chuva cinzenta
na moldura do lago.
Da celeste aridez,
incide o duro sol
no luminoso ipê.
Com puro céu lavado
o verde está brotando,
louvado seja Deus.
 
Fernando Correia Dias, poeta português, natural de Penajoia

DA AMPLIDÃO

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Azulejo de paredes frias
Montanha de pele surda
Jornal amarfanhado
                             nos dentes dos aviões?
                             Planta uiva podre
                             Lago avenida
                             e torre:
                                    sangue
Dentro da nossa febre
sempre cantam estas cigarras
                              tontas e lerdas
                               brancas e pardas
                               Pode ser
                               este horizonte retilíneo
                               ou o ônibus
                               ou a pressa
                               quem sabe o vazio das vielas?
Que a cidade detém os pássaros
                                  nas artérias do vento
                                  Manhã nem é dia
                                  para a rede Macunaíma
                                  e o tempo aleijadinho
só vomitou pedras lodacentas
                                  Tantas vezes
                                  as mãos eram socos
                                   nos olhos desta cidade
No entanto
o asfalto luzidio:
                                   não se sabe
                                   por onde foi
                                   o mar
                                   desta cidade
                                   Não se retomará quase nada
                                   Nem mesmo é um jeito
                                   de se sorrir dos palácios
                                   A tortura
                                   não esmaga o eixo das flores amarelas
                                   Ou talvez
                                   não mais se sonhe
                                   por aqui
Vindos do Brasil inteiro
                                   inteiros não somos mais:
                                   a cidade estraçalha
                                                   nossos corpos famintos
                                   a cidade espicaça
                                                    nossos sonhos famintos
E famintos:
               não se sabe
               por onde foi
               a canção
               desta cidade
               Mormaço calor cerrado
               espaço branco azulado
               chuva rente primavera
               Alegria a gente inventava
               sem precisar de máquinas
Hoje realmente
               não se sabe
               por onde foi
               por onde foi
               por onde foi?
 
Stela Maris, poetisa natural de Nova Granada (SP)

Brasília

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“Entre os graus 15 e 20, aí havia uma enseada bastante extensa e bastante larga, que partia de um ponto onde se formava um lago. (…) aparecerá aqui a terra prometida, onde correrá leite e mel.”

Dom Bosco

Brasília é bastante branca
Brasília é vermelha manta
Brasília é o diáfano sobre a luz que abrilhanta

Brasília é um colar de pérolas que à noite encanta
Brasília é um manjar turco exótico que me levanta
Brasília é uma cobra recolhida que se estanca

Brasília é um vilarejo se passando por cidade
Brasília é uma expressão na geometria da felicidade
Brasília é a cidade invisível de Italo Calvino em tenra idade.

Brasília é uma profecia de Dom (Bosco)
Brasília é um poema esculpido em pedra
Brasília é canção de Carlos Drummond (de Andrade)

Brasília é o diamante na coroa
Brasília é um avião imenso que não voa
Brasília é uma cidade de Amauri afundada à toa.

Brasília é a Clarice Lispector sonâmbula sobre a água
Brasília é açaí preto na sobremesa, árdua
Brasília é a perfeição em tijolo e argamassa na frágua.

Brasília é um pedaço de torta espacial
Brasília é uma ilha de fantasia num lago irreal
Brasília é uma noite dominicana frugal.

Brasília é a última utopia
Brasília é para Sylvia Plath uma distopia
Brasília é uma paisagem de ectopia

Brasília é um oásis de pássaros migratórios
Brasília é o oráculo de vocábulos premonitórios
Brasília é uma página de um livro obrigatório.

Brasília é uma miragem instável no deserto
Brasília é uma visão pálida de um ponto incerto
Brasília é quando o prego e o martelo estão muito perto.

Poema de Abhay K, vice-chefe da missão diplomática da Índia no Brasil

Meu Deus, que cidade linda!

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Por Guilherme Goulart

Ele tinha motivos de sobra para comemorar a aprovação, em concurso público, para um cargo no Banco do Brasil, em Brasília.
Além de deixar para trás o interior do país, Antenor conquistava a esperada oportunidade de conhecer e morar na cidade tantas vezes cantada por Renato Russo. Aos 25 anos, mantinha-se fá incondicional do eterno líder da Legião Urbana. Apaixonara-se pela banda no inicio da adolescência, quando ouviu, pela primeira vez, Faroeste Caboclo.

Àquela época, gastava horas e horas imaginando a Brasília reverenciada pelo ídolo. Estranhava termos como Asa Norte, rockonha, Parque da Cidade, camelo e tentava, por si só, desvendar esses mistérios. Quando soube do resultado do concurso, Antenor logo avisou: “Mãe, tô indo para Brasília! Vou conhecer a terra do Renato, a senhora acredita?” Dona Genoveva ficava com o coração apertado, mas sabia que a inteligencia e a dedicação do filho o levariam para longe dali. Ainda assim, ela era só orgulho.

Antenor deveria assumir o novo emprego dali a dois meses. Mas tamanha ansiedade o fez deixar a cidade natal quase imediatamente. Queria ver, ouvir, tocar e sentir a trilha sonora da juventude. “Mãe, vou de ônibus. Quero saber o porquê de o João (de Santo Cristo) dizer: “Meu Deus, que cidade linda” ao sair da Rodoviária e ver tudo enfeitado com as luzes de Natal. Dona Genoveva não sabia muito bem como lidar com a empolgação do filho, mas compartilhava tamanha felicidade.

O jovem legionário não dormiu nas mais de 24 horas de viagem interestadual, excitado demais para descansar o corpo e os olhos. Parecia um menino. Conversou com todos os passageiros, que, na metade do caminho, sabiam de cor a paixão do futuro funcionário do Banco do Brasil pela trupe de Renato Russo. Alguns mais solidários cantavam com ele as canções preferidas.
Geração Coca-Cola, Tempo Perdido, Faroeste Caboclo, Eu sei, Pais e Filhos…Terminava uma e logo engatava outra, transformando a viagem em excursão de segundo grau.
Antenor só ficou em silêncio quando o ônibus alcançou o Distrito Federal e enveredou pelo Eixão Sul. Encantou-se com os prédios, o verde abundante e a avenida de sete faixas, três de cada lado e uma central. Em cinco minutos, estava diante da Rodoviária. À direita, enxergou o que só a imaginação até então lhe trouxera: a Esplanada dos Ministérios. “Meu Deus, que ci-da-de lin-da”, repetiu, devagarinho, como João de Santo Cristo. Antenor Azevedo chorou como criança.

O servidor público viveu intensamente a capital federal até o primeiro dia de trabalho. As impressões e as estranhezas – era difícil entender as quadras, o trânsito e a falta de nome nas vias – apareceram nas cartas escritas à mãe. Também expandiu o conhecimento. Visitou museus, prédios públicos e monumentos. Descobriu Oscar Niemeyer, Lucio Costa, Burle Marx e Athos Bulcão. Em pouco tempo, conhecia mais a cidade do que muitos brasilienses. E prometeu à mãe que, tão logo alugasse “um apê no Sudoeste Econômico”, a traria para “um city tour de primeira”.

Antenor estava realizado. Morava na terra onde viveu o carioca Renato Russo.

Texto de Guilherme Goulart, transcrito da “Crônica da Cidade”, do Correio Braziliense, 24 de junho de 2017.

FEIRA DE CEILÂNDIA (SENZALA)

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A feira de Ceilândia te oferece o que quiser
comprar:
Peixe, sapato, retrato, colar pra te enfeitar
E o cinto da moda

Sinto vontade, grande necessidade de
comprar
Roupa xadrez, meia longa, bota preta pra
arrasar
Estilo colegial, brega, veste mal, vamos parar
(…)
Mas o que você precisa mais, na feira não se
pode encontrar:
Razão, consciência, senso, inteligência
Uma cabeça pra pensar
Isso só no shopping lá do centro você vai achar
Se tiver dinheiro pra comprar
Boa aparência pra entrar
(…)

Ellen Oléria
Poema transcrito da coluna “Fora do Plano”, Correio Braziliense, 13 de julho de 2015.

SK8

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SK8
É
cultura
energia
pulsação
é um tipo de célula social
para construção de laços,
amizades, cidadania

antes da existência dos paralamas do sucesso
o Herbert e o bi conheceram-se através do SK8

cresci entre livros e idas de SK8
para a pista do clube dos 200 em Taguatinga

a chegada da pista na praça do D.I.
representou o desejo de toda uma geração

ontem,
diante dos olhos do administrador de Taguatinga,
nossa pista foi derrubada

a praça do SK8 é do povo
ontem meu coração foi dormir furado
ontem foi o meu pior role em taguatédio

querem acabar com as drogas?
derrubem polític@s ordinári@s

a fúria dos deuses
irá voltar-se
para os criminosos
da beleza

Paulo Kauim
Poema transcrito da coluna “Tantas Palavras”, Correio Braziliense, 07 de maio de 2015.

Ronaldo Cagiano

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Ronaldo Cagiano comparece com o verbo contundente, a mensagem politicamente engajada, que não tergiversa. Embora sem parentesco visível de natureza estética com Bertolt Brecht ou Ernesto Gardenal, são essas figuras exponenciais da poesia participante que ele nos faz lembrar. É verdade que se trata de composições de uma fase francamente panfletária de sua obra, quando, não por coincidência, como articulista Cagiano fustigava e enfurecia políticos da Província, ao execrá-los, merecidamente. Conquanto o tom de agora seja outro, o poeta optou por marcar aquele período de sua vida com os poemas denunciadores do “…cinismo caviloso das elites/, a ignomínia persistente dos canalhas”. Em “Prosoema”, ele é ainda explicito e prosaico, antes de seus versos mais depurados, mas metafóricos e menos circunstanciais, o que explica os seus vários destaques em certames literários, nos últimos anos. Sensível, solidário, político, irreconciliável com o oposto da ética ele também o é na “Crônica (da) cidade”: “do derradeiro pântano/emerge a cidade”. R.C. aponta para “(…) a cidade com suas veias abertas”: o seu sangrar é a dramática presença de homens e crianças na mendicância, condição que os ultraja pelas vias públicas da metrópole.

Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

As ninfas da construção

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Por Ana Miranda

Muitos dos escritores naturalistas do século 19 se debruçaram sobre a figura da prostituta, como Zola, Tolstói ou Dostoiévski. Matizaram e dramatizaram moças quase sempre arrastadas do campo para os becos sujos da cidade, empurradas pela miséria. Também nossa literatura se ocupou de personagens desse mundo assombroso, desde Lucíola, de José de Alencar, em que Lúcia é a mulher que “na perdição conserva a pureza d’alma”. Essas mulheres foram o antídoto ao culto da donzela, e a tolerância a sua atividade se baseou na crença de uma espécie de “proteção” às famílias. Em todos os eldorados, corridas de ouro, campos de trabalho ou locais de homens carecentes, elas estiveram ali aos bandos.

No tempo da construção de Brasília, foram atraídas para aquele canteiro de obras repleto de homens, muito deles jovens e solteiros, ou distantes de suas esposas. É possível se pensar que, se não fossem essas mulheres, a historia da construção da cidade teria sido bem mais violenta; elas eram um alívio para a virilidade dos construtores. Faziam parte dos segredos da cidade. Lembro que, quando se dizia as palavras sete quedas, as mocinhas ficavam coradas de pudor. Havia um bordel com esse nome.

Mais o mais famoso era o Veneza, que contava com um quadro de mulheres selecionadas entre as melhores em Minas, São Paulo, Rio, duas lindas cubanas e francesas. Havia uma decoração esmerada, com cortinados, luzes ardilosas, babados, flores, estátuas nos cantos do “salão de baile”. As moças usavam batom forte, vestido longo com decote arrojado, sapato alto, cabelo arrumado no salão de beleza. Não podiam repetir a roupa, deviam usar meias finas e estar sempre limpas. Umas andavam de charrete com cavalo branco, a saia rodada aberta sobre o assento.

As mais bonitas e jovens eram as mais caras. Ficava uma tabela de preços na porta do quarto; o dinheiro das mulheres era dado a elas, e o de casa, deixado na copa. Mas antes elas tinham de fazer sala, dançar, levar os homens a beber para dar mais lucro à casa. Ali iam políticos, engenheiros, os homens mais abastados, consta que até Juscelino frequentava o lugar, enquanto os seguranças ficavam esperando do lado de fora.

No inicio, os candangos iam para Luziânia ou Formosa buscar diversão sexual, mas dava “falha de serviço”, e a muito custo convenceram Israel Pinheiro a permitir um cabaré mais perto, na Cidade Livre, adiante do trilho do trem de ferro. Uma casa de tábuas, um quarto pequeno com cama e uma mesinha. Assim que recebiam o salário no fim de semana, peões, candangos, soldados tomavam banho, mas uns iam mesmo cheirando a suor. Um caminhão os despejava na frente do bordel, eles faziam fila na porta, encostados um no outro para não perder a vez, meio rindo, meio sem graça.
Uma prostituta contou que “passavam por cima” dela uns 80 homens num dia. Elas recebiam uma pomada para desinchar as partes, e eventualmente um descanso de uns minutos para se refazerem. Cada ato custava 30 cruzeiros: 15 para a chave, 15 para a mulher, que era descontada em cinco do álcool, sabonete e uso do banheiro.

Não tinham vida fácil essas moças. Se uma delas saía na rua, as de família chamavam a policia e elas eram presas. Se a GEB chegava, as menores de idade se escondiam debaixo da cama para não serem levadas. E quando acharam que não devia mais haver aquele bordel, um juiz deu ordem de fechar, um trator derrubou o barracão, e as mulheres foram mandadas de caminhão para Alexânia, Luziânia, ou largadas na estrada. Umas se saíram bem, casaram, compraram casas, mas a maioria continuou numa vida de pobreza e dificuldades.

As prostitutas do tempo da construção de Brasília ficaram esquecidas pela história, o que deu o titulo do filme de Denise Caputo, “A saga das candangas invisíveis”, em que ouvimos o depoimento de alguma delas, Yone, Auda ou Noeme Luís, com seus rostos maltratados, uma dose de amargura, traços de uma antiga beleza e um certo orgulho daquelas lembranças, sabendo-se tão pioneiras com outro qualquer.

Texto transcrito do Correio Brazilense, 22 de fevereiro de 2015.

UMA CANÇÃO PARA NIEMEYER

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UMA CANÇÃO
PARA NIEMEYER

A minha vida é sempre assim…
É como a flora do cerrado…
São galhos tortos postos
sobre estes troncos torturados…
Mas preparei flores para ti…
E frutos bem adocicados…
Cajus, cagaitas e pequis…
Mangas colhidas com cuidado!

Retas perseguem setas e rotas nunca dantes experimentadas…
Eu vi um ângulo impossível furar o vão e virar escada!
Era uma mão ou era uma asa aquela concha tão desvairada?
E aquele vão onde passam vans…? E aquele voo por sobre o nada?!

E aquele círculo em espiral e aquela curva tão concavada!
E olhem só que palmas esguias! E estas formas enfileiradas…
Esteta louco! Não vê que cai! Este experimento vai dar em nada!v
Vejo que ri atrás dos bigodes e da prancheta endiabrada!
(…)

Paulinho Dagomé
Poema transcrito da coluna “Fora do Plano”, Correio Braziliense, 13 de julho de 2015.

BRASILIA FUTURA

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Lua cheia
no meio do Brasil
a construção de tudo: a cidade
No princípio é moldura do nada
sobe mais de 1.000 metros no ar
nem um morro contorna a vista
no alto o plano piloto vira escultura
A primeira fase é candanga
ligação de Brasis
com o mundo
Os pés sobre a terra finavermelhácida
pele de asfalto
corpo de concreto e vidro
mãos ao norte e sul do fazer
O rosto da cidade fica conhecido
sai do papel
escala o pico do impossível
em recorde de inauguração
A cidade criança engatinha
abre os braços para toda gente
parece com a mamãe e o papai
traços da filosofia socialista e de Le Corbusier
anda com a burocracia e suas primas Poesia e Lazer
Infância de sonhos
cidade encontro de céu e chão
asas de último tipo
A dimensão Brasília
face humana do cerrado e arquitetura
fundidos em habitantes-raízes da utopia
Brasília
marco zero da ocupação do interior
voo de raças e quereres
seta ao vento da miscigenação
Aqui não tem mar, não tem esquina
nem trem ou tradição…
ter nascido cidade-capital é destino
de gente, espaço e tempo
Oscar Niemeyer e Lucio Costa
criaram os rumos da modernidade brasileira
largo gesto de autoria
de casas e palácios das mudanças
Tem palavra que é Brasília escrita e pronunciada
mudança é uma delas
muda de lugar e hora
transmuta e marca a história.

Delei
Poema transcrito do álbum “Brasília: 55 anos – da utopia à Capital

Um aeroporto vermelho

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Por Ana Miranda

Naqueles fins dos anos 1950, íamos viajar para a sonhada Brasília. Era preciso fazer uma roupa de viagem, ter uma maleta de mão, comprar malas, capas, todo um enxoval. Tempo em que havia lirismo nas pequenas e grandes coisas. As passagens tinham sido adquiridas com muita antecedência, cada uma era um bloco de papel, as páginas preenchidas a mão, não podíamos esquecer de levar as passagens! E sentíamos uma ansiedade imensa, contávamos os dias, arrumando de um e outro jeito as malas para caber mais coisas, vou precisar disto, daquilo, a viagem era discutida, esperada, sonhada… Ainda mais uma viagem de mudança. Houve despedidas, lágrimas, promessas de cartas… Adeus, Rio de Janeiro! A viagem demorou uma eternidade, o avião parecia uma lata aparafusada, milagre que voasse uma coisa tão pesada, e o mundo lá embaixo, infinito, mares, nuvens e florestas e montanhas… A paisagem ia mudando, a mata ficando baixa, rala… Enfim, era o Planalto Central.

Lá estava a pista do aeroporto, ao lado o barracão de madeira, e terra vermelha. Pessoas acenavam à beira da pista. O avião pousou, fez a volta, encostou no terminal. Abriu-se a porta e senti o ar seco de Brasília. Descemos pela escada segurando firme no corrimão, com nossas frasqueirinhas, uma azul e uma rosa, nossas roupas costuradas para a ocasião, uma azul e uma rosa, saia e paletó, as duas meninas que se vestiam como gêmeas, e a mãe de saia justa, salto alto, segurando os cabelos ao vento, capa de viagem. Pisamos em Brasília. A pergunta, a sombra de um sonho, se tornava uma verdade feita de cimento, terra, gente. Sim, havia gente, meu pai não morava ali sozinho com o presidente e o doutro Inácio e uns lobos.

Logo vi meu pai, encostado na Rural Willys branca e vermelha, fumando, de chapéu de palha, seu carro estava estacionado perto da pista, entre jipes, Vemaguetes, um ônibus. Ele veio até nós, nos abraçamos e fomos buscar as malas, entregues dentro do terminal lotado de gente alegre e ruidosa. Era um aeroporto acolhedor, na nossa dimensão, onde as pessoas circulavam livremente, e já dava uma provinha da cidade: a construção de madeira, as grades horizontais de tábuas na fachada, para proteger do sol. Um aeroporto que pertencia ao passageiro. Logo entramos na Rural, e fomos aos trancos pela estrada de terra que nos levava à cidade. Naquele tempo a distância entre o aeroporto e a W3 parecia bem maior, a intensidade de sentimentos estendia o tempo.

Havia um antigo aeroporto, de terra batida e casa de taipa coberta de palha, chamado de Vera Cruz, quando ainda se iluminava a pista com faróis de jipes; e o segundo, provisório, com terminal de madeira e pista asfaltada. O aeroporto era muito importante para uma cidade com estradas difíceis, às vezes se demorava umas trinta horas só de Anápolis a Brasília, por terra. E chegavam levas e levas de visitantes ou moradores ou gente do governo que ainda vivia no Rio e vinha só para trabalhar.

O aeroporto era também lugar de passeio, o povo da cidade gostava de olhar os aviões pousarem e levantarem voo. Às vezes, as visitas eram anunciadas, esperadas, formavam-se pequenas multidões para receber alguma celebridade. Fomos, um grupo de estudantes em uniforme de gala, recepcionar Charles de Gaulle, homem grandão, meio desengonçado para um presidente. O aeroporto era movimentado, ali desceram e subiram muitos convidados, chamados para apoiar o sentimento mudancista: Fidel Castro, André Malraux, Golda Meir, o príncipe da Holanda, a duquesa de Kent, o presidente da Itália… E cineastas, diplomatas, jornalistas, congressistas, pioneiros, famílias de pioneiros, gente comum, meninas com frasqueirinhas, desciam e subiam Caravelles, Viscounts, aviões da Panair… Era o porto do nosso mar que era o céu. O presidente às vezes esperava pessoalmente algum convidado. Ele mesmo foi um dos maiores fregueses do aeroporto, desde os primeiros pousos e decolagens. Brasília era também destino de turismo para arquitetos, e curiosos em geral. Pessoas viajavam para conhecer o canteiro de obras mais famoso do mundo.

Dali para cá, o aeroporto mudou tanto quanto o mundo; não é mais bucólico, nem livre, é um lugar impessoal, imenso e pequeno, cheio de comercio, com excesso de gente. Somos levados aos portões, revistados e vigiados, exigem documentos e precisamos nos comportar como um rebanho. Ainda bem que temos os painéis de Athos Bulcão para nos confortar nas horas de espera, e um livro ou um encontro casual.

Texto transcrito do Correio Braziliense, de 1º de dezembro de 2013. Caderno “Diversão&Arte”


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